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Maringá, quarta, 16 de janeiro de 2002

DESTAQUE

Maringaense faz sucesso no Japão
O jogador Alex, que já foi eleito o melhor do Japão, se naturalizou japonês e pode defender a seleção oriental na Copa de 2002

O futebol é a "galinha dos ovos de ouro" de muitas famílias pobres. Além do dom natural que todo menino brasileiro nasce para ser jogador de futebol, a profissão também passou a ser encarada como uma maneira de sustentar a família. Com isso, as quadras, campos de várzea, escolinhas de futebol e até mesmo as ruas estão cheias de garotos que sonham alto, como jogar em outro país.

Porém, essa sorte chega para poucos. E, algumas vezes, até para quem não é tão necessitado. É o caso do maringaense Alessandro dos Santos, que está há oito anos no Japão. Alex, como é chamado pelos torcedores, saiu de Maringá onde jogou no Grêmio de 1988 a 1994.

 

Alex e seus troféus e medalhas: de Maringá para ser premiado no Japão.

"Saí daqui do Grêmio, tenho amigos ainda que estão no Grêmio querendo uma chance de ir prum grande clube. Eu tive uma chance e soube aproveitar. É fruto do meu trabalho.", disse em entrevista ao Maringa.Com.

COMEÇO DIFÍCIL
E, pode-se dizer que ele teve sorte. Dois técnicos que trabalhavam no Japão, entre eles um brasileiro, vieram para o Brasil analisar jogadores em São Paulo e no Paraná. Eles escolheram dois atletas de cada estado e Alex foi um deles. Chegando ao Japão, o maringaense foi para uma escola estudar e ser chamariz de um projeto para chamar mais alunos para o futebol, com a intenção de formar um bom time. Mas, o começo foi difícil. O time era fraco e Alex passou por três anos complicados.

Até que um teste feito em 1997 no Shimizu S-Pulse, um dos mais importantes clubes japoneses, mudou suas expectativas. Primeiro, o jogador passou num teste no aspirante que era treinado pelo brasileiro Silva. Mas, o treinador falou que ele teria que fazer um teste no profissional se quisesse ficar no time. Como o jogador ainda tinha que cumprir contrato com a escola, foi embora e voltou duas semanas depois. Com a aprovação do técnico argentino Ardiles, campeão do mundo jogando pela seleção argentina em 1978, Alex passou no teste e assinou um pré-contrato.

A equipe do Shimizu foi fundada em 1992 e já teve como treinador Émerson Leão, ex-técnico da seleção brasileira, em 1993. Graças ao futebol ofensivo do meia esquerda brasileiro, que usa a camisa 8, o time da cidade com cerca de 235 mil habitantes, foi um dos que mais cresceu nos últimos anos em toda a J-League. Em 1998, o time ficou em terceiro lugar, com Alex jogando 28 dos 30 jogos do campeonato.

Em 1999, o maringaense foi consagrado como o melhor jogador da temporada e seu time ficou em segundo lugar. "Só não fomos campeões do ano porque perdemos a final nos pênaltis para o Jubilo Iwata.", informa. Em 2000, o Shimizu foi campeão da Copa da Ásia e Alex novamente eleito como o melhor do torneio. Em 2001, a temporada não foi muito boa. Mesmo assim o time foi campeão da Copa do Imperador, cuja final foi no dia 1º de janeiro desse ano, vencendo o Cerezo Osaka por 3 a 2. Atualmente, além de Alex, o time tem outro brasileiro, o gaúcho Marcelo Baron, que já jogou no Internacional (RS).

CRAQUE JAPONÊS

Com tanto sucesso, o maringaense de 1,78m, 69kg e cabelo rastafari, só poderia ter bons sentimentos em relação ao Japão. Tanto é que entrou com um pedido de naturalização no início do ano passado e, no dia 12 de novembro, recebeu a notícia de que já era cidadão japonês. Com isso, Alex pode ser outro brasileiro a integrar a seleção japonesa numa Copa do Mundo.

Já tem meio caminho andado, já que seu nome consta na convocação mais recente. Na Copa de 1998, na França, Ruy Ramos e Wagner Lopes defenderam a camisa oriental. "É um tempo longo que estou lá. Tive um começo difícil, mas passei a gostar do Japão. Passei momentos ruins, mas estou desfrutando do profissionalismo.", justifica a naturalização.

 

O jogador afirma não ter receio de enfrentar o Brasil na Copa do Mundo

Se o Japão jogar contra o Brasil na Copa de 2002, o atleta garante que não terá problemas. "Pelo que já decidi, não tem mais volta. Mesmo jogando contra a seleção, não vou pensar duas vezes. Já sou um cidadão japonês e vou batalhar pelo Japão, pois sou um profissional.", afirma categoricamente, mas faz questão de frisar que adora o Brasil.

Comparando as duas seleções, deixa claro que o futebol brasileiro é mais cadenciado e mais técnico, enquanto o japonês é mais dinâmico. Outras diferenças percebidas pelo brasileiro é que as cobranças da torcida são maiores no Brasil, enquanto que a organização nos bastidores do futebol japonês é muito maior.

O meia de habilidade se declara flamenguista, fã de Zico e de jogadores que jogam com a perna esquerda como Rivaldo e Leonardo. Sobre o assédio que vem sofrendo agora, Alex deixa escapar que algumas vezes se sente incomodado. "Às vezes, eu penso: "Pôxa, toda hora!" Por outro lado, fico feliz porque as pessoas estão sabendo que eu estou ganhando. Tenho que desfrutar um pouco disso.", declara serenamente.

PERSONALIDADE DA TV
"Para a mãe Maria das Graças Santos, é importante o apoio da família, embora sinta saudade. "Uma hora a gente sente porque somos uma família pequena. É difícil, mas fico orgulhosa por esse sucesso dele.", afirma com um sorriso nos lábios e mostrando as matérias de revistas e jornais japoneses com fotos do filho.

Alex está em Maringá de férias, descansando no apartamento da família, num bairro de classe média ao lado do Estádio Regional Willie Davids. Mas, não descuida do preparo físico treinando diariamente. E, é claro, tem seus momentos de distração passeando com a namorada japonesa que veio pela primeira vez ao Brasil. Para aumentar ainda mais a invasão de privacidade na vida do jogador, uma equipe formada por três redes da televisão japonesa está em Maringá para fazer um documentário sobre sua carreira.

Nascido a 20 de julho de 1977, o maringaense de apenas 24 anos pode ser um brasileiro de destaque na Copa do Japão e Coréia. Isso se não for o único, devido ao mal momento que passa a seleção canarinho.

Veja mais fotos do jogador Alex

Texto, reportagem e fotos: Andhye Iore

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