| Maringá, sábado, 19 de janeiro de 2002
DESTAQUE
Do canavial para a fama
A ex-cortadora de cana Ilda Alves, que mora em Sarandi, é
uma das melhores maratonistas do país na atualidade
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Quando Ilda Alves dos Santos cortava cana em Astorga,
debaixo do sol, ganhando pouco e sendo explorada pelos patrões,
nunca imaginou que um dia se tornaria uma atleta importante
no Brasil.
Nascida a 5 de fevereiro de 1972, em Santa Fé, cidade
com cerca de nove mil habitantes próxima a Maringá,
numa família humilde, ela precisou trabalhar aos
nove anos para ajudar na manutenção da casa
e na criação dos 13 filhos (!) da família.
E, justamente por isso, não praticava esporte na
infância e na adolescência e estudou somente
até a quarta série.
Por influência do irmão Edmílson, que participava
de corridas, Ilda começou correr em 1998, aos 26 anos.
O início de carreira tardio também foi pela necessidade
de uma melhor sobrevivência. Além de ganhar pouco
na roça, ainda era enganada pelos patrões que
alteravam as "metragens" para fazer com que os cortadores
produzissem mais sem que ganhassem mais.
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Ilda dos Santos: começo tardio, mas vitorioso |
DITADO
Com a participação nas corridas e algumas premiações,
ficou mais interessada no atletismo que no canavial. "Quando
ia para as corridas, chegava a ganhar R$200,00 e aí eu
desanimei de cortar cana", lembra explicando que ganhava
somente R$ 3,00 por dia de trabalho na roça.
De jeito simples e simpática, Ilda abusa da expressão
"como diz o ditado..." para contar passagens de sua
batalha como cortadora de cana e de sua rápida ascenção
no esporte. Em sua casa no Parque Alvamar 2, em Sarandi, ao
lado de seus inúmeros troféus e medalhas –
que nem ela mesma sabe quantos são – diz que quando
não está treinando ou competindo, gosta de visitar
a mãe que mora em Astorga e guarda mais troféus.
"Sinto muita saudade dela!", revela com carinho e
diz que já comprou uma casa com o dinheiro das corridas
para poder trazer a mãe para perto.
A corredora é especialista em provas de percurso longo.
As maratonas que Ilda participa tem, em média, três
horas de duração. Para estar bem preparada, ela
treina duas vezes por dia, correndo 25km no total. No sábado
e domingo, a distância aumenta. Além de treinar
rampa, ela faz 30km, sempre acompanhada pelo exigente irmão
treinador. "O Edmílson é um bom treinador,
só que enche o saco um pouquinho!" (risos) Mesmo
com a reclamação, ela reconhece que essa cobrança
dele, pode melhorar seu desempenho e é grata ao irmão.
"Eu tenho que estar agradecendo o meu irmão por
tudo isto que está acontecendo comigo", completa.
MÁGOA
Mas, os treinos puxados não são os únicos
problemas. A atleta reclama das críticas que sofre. "Eu
pensava que era só colocar o tênis no pé
e correr para ganhar. Só que no nível que estou,
é mais difícil que começar uma carreira",
justifica o falatório nos bastidores. "Quando eu
e o Edmílson estávamos lá embaixo, não
tivemos ajuda de ninguém. Agora, que estamos vencendo,
tem gente colocando olho gordo!", insinua.
Uma passagem ruim na carreira de Ilda foi quando correu por
Maringá. Aparentando mágoa, ela diz que correu
com dinheiro do próprio bolso. "Eles (a Secretaria
de Esportes de Maringá) fizeram promessas e não
cumpriram". Além de todas estas dificuldades, ela
ainda precisa lidar com as dores musculares que sente ao final
das corridas. E, muitas vezes, não tem um tempo de recuperação
suficiente porque já está inscrita em outra prova.
Foi o que aconteceu em novembro do ano passado. Correndo uma
maratona em Curitiba, a ex-cortadora de cana abandonou a prova
a pedido do treinador, que tinha a expectativa de uma melhor
colocação em outra prova na semana seguinte em
Brasília. E deu certo. Ilda venceu a Maratona de Brasília
correndo os 42km da prova em 2 horas, 50 minutos e 21 segundos
e recebeu um prêmio de R$ 8 mil.
DISNEY
Porém, nem sempre uma vitória é sinônimo
de prêmio em dinheiro. Ilda dos Santos é bi-campeã
da Disney World Marathon, em Orlando, nos Estados Unidos,
onde venceu ano passado e em janeiro deste ano, onde fez
o tempo de 2 horas, 48 minutos e 38 segundos. A paranaense
foi 20º na classificação geral, perdendo
apenas para para 19 homens entre 7.950 inscritos.
A prova é meramente participativa e não oferece
premiação. Motivo pelo qual muitos atletas
de ponta não participam. Mas, foi a que mais deu
projeção à corredora que, atualmente,
conta com um único patrocínio de uma empresa
paulista que paga R$ 300,00 mensais.
A alegre atleta também participou de maratonas em Blumenau,
Porto Alegre e São Paulo. Na Maratona Internacional de
São Paulo, em julho do ano passado, ficou em sexto lugar
entre dez mil atletas inscritos para correr o percurso de 42.195m.
Ilda fez o tempo de 2 horas, 48 minutos e 56 segundos. Apesar
de ser um tempo abaixo do que fez quando foi vencedora em Brasília,
não foi suficiente devido ao melhor nível da prova.
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A corredora e seus prêmios: correndo contra as dificuldades
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O futuro de Ilda é promissor e os próprios atletas
se assustam com seu rápido desenvolvimento. "Antes
eu entrava nas corridas e tinha medo das mulheres, agora eu
não tenho mais", afirma convicta. Dizendo que aprendeu
a não depender de outras pessoas, ela explica que só
passou a levar o atletismo a sério no ano passado. "Aprendi
muita coisa e tenho muito mais para aprender!", conclui.
Texto e entrevista: Andhye Iore
Fotos: Ademir Kimura
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