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Idéias

Expectativa
07/07/2006

Mentalmente arrumou suas malas e partiu. Tantas vezes já vivera aquela cena: sairia de casa, pegaria um táxi e, na rodoviária, escolheria o primeiro destino que a levasse para longe daquele lugar. Iria, lá em qualquer cidade, reconstruir seus sonhos, encontrar um novo amor, ser feliz. Mas, primeiro teria que virar as costas para aquela vida (isso tinha que ser de repente, num momento de desespero, senão jamais aconteceria).  Depois, nunca, mas nunca mais, poderia entrar em contato com ninguém que recordasse seu passado. Minuciosamente traçava planos para se manter escondida: esquecer o cartão de crédito, abandonar a conta bancária, deixar todas as pendências sem solução. Sabia que os credores poderiam achá-la e, se eles a encontrassem, ele também o faria.    

Era preciso transformar-se em outra pessoa, enterrar de vez sua identidade, esquecer tudo que vivera até li. Mudar a cor do cabelo, o jeito de se vestir, emagrecer, aprender uma nova profissão. Essa era a única solução. Ninguém poderia saber de seu paradeiro, nem os parentes, nem as amigas íntimas. As pessoas, mesmo as que tentavam ajudá-la, jamais compreenderiam aquela situação. Para elas, o melhor conselho era uma boa conversa, um boa transa, paciência ou até terapia matrimonial. Estava convicta de que nada disso resolveria. Havia tentado durante anos! Tantas conversas definitivas, promessas, resoluções que não duraram nem uma semana. Se houvesse uma forma de voltar atrás e apagar aquele primeiro encontro! Eles viviam juntos desde então, perpetuando uma relação de sangue e paixão. As discórdias já tinham vencido, diversas vezes, a barreira do som e passado para o lado da agressão física. Nesses momentos, ela tinha certeza de que não havia retorno, mesmo a ternura que os havia unido não seria capaz de superar a humilhação daqueles traumas. Por isso alimentava a expectativa de sumir. Fantasiava sua nova vida, criava personagens, situações, lugares e fugia para esse mundo toda vez que a tensão apertava o convívio com o marido.

Enredo de novela, ou filme americano. Mulher, testemunha crime é protegida pelo FBI. Muda de nome, de cidade, de vida. Como ela desejava que isso lhe acontecesse! Mas estava no Brasil, vivendo a realidade de milhões: salário mínimo, ônibus lotado, filas bancárias, dinheiro escasso. Era uma vida digna.... Enfadonha, mas digna. Esforçava-se para acreditar que ainda poderia registrar sua passagem na terra de forma mais brilhante. Todos os anos fazia uma penca de promessas, programando sua virada. Grande expectativa para 2000, começo de um novo século! Esperanças maiores em 2001, ampliadas em 2002, 2003, 2004 e 2005. Em 2006 finalmente algo aconteceria: Copa do Mundo, eleições, se o Brasil fosse para frente, certamente ela também iria. A conquista do campeonato seria uma motivação a mais, dizia para si mesma, toda vez que a seleção jogava. Só que as coisas passavam rapidamente, a Copa, o ano, o natal. Seria culpa da tal da Física Quântica? Seria algum tipo de acontecimento cósmico ainda sem explicação?  A verdade é que, tanto ela, quanto ele viam o tempo esvair-se, sufocados pelos erros e pela penúria de ter que tocar a vida. Os ricos eram mais felizes, brigavam menos. Dizia uma teoria econômica. Quem sabe? Ela estava convencida que se estivesse longe das discussões, se não tivesse que persuadi-lo de tudo, justificar-se por cada suspiro, seria mais fácil desbravar seu talento, encontrar seu lugar sobre o sol. Na verdade, ela tinha provas de que ele compactuava com esse pensamento.

Mas a relação deles não seria rompida com um divórcio – carecia de distância física. Só assim ela conseguiria continuar. As lembranças seriam insuportáveis. Se ficasse morando na mesma cidade que ele, ou mantivesse contato com os parentes e amigos, sua memória voraz a torturaria remoendo todos os momentos que haviam passado juntos. Uma vida inteira - e ela havia guardado cada palavra, cada gesto, cada olhar. Qualquer pessoa que mencionasse o nome dele estaria acertando seu coração com uma flecha. Ela era assim, dramática, passional, voluntariosa, irracional. Por isso, precisava ir embora num ímpeto. Planejar, sentar calmamente com ele para resolver, falar que gostaria de se separar. Isso era inútil. O tipo de envolvimento que tinham ia além do entendimento, haveria choro e explosão, para depois, como das outras vezes, acabar em nada. No fundo (bem lá no fundo), ela não queria se separar. Ela queria aparar as arestas e prosseguir. Mas era tarde demais. Como ser feliz com ele depois de tudo que haviam falado, de todos os defeitos que haviam esmiuçado? Impossível! Tentar daria muito trabalho, muito sofrimento. Ficava exausta só de pensar nisso.

Embora o amadurecimento tenha lhe trazido um pouco de paz, ela sentia-se angustiada por ver a vida escorrer pelas mãos. Era como se um laço estivesse apertando sua garganta. Tinha consciência: quem era ou quem poderia ser estavam esmagados naquela relação. Admitia, a culpa era sua. Tanto quando dele. Durante muitos anos, ele e ela ampliaram as expectativas com relação ao companheiro, empurrando para o futuro os projetos e sonhos individuais. Acabaram se transformando na antítese de tudo que admiravam: agora eram rancorosos, invejosos, insatisfeitos consigo e com a vida que assumiram. Haviam abandonado seus planos e desejos para viver aquele vínculo em profundidade. Mudaram para uma cidade onde as ofertas de emprego eram maiores e renunciaram ao que realmente gostavam de fazer. Frustrados com o trabalho, sem amigos que partilhassem opiniões, ambos se concentraram em culpar o outro pela situação, esquecendo das escolhas feitas, da covardia adquirida. As coisas não realizadas, as conquistas não buscadas, a falta de responsabilidade eram carrascos dia-a-dia minando o chão que pisavam. Ela bem sabia que esse quadro era irreversível, talvez ele também soubesse, mas ambos estavam magoados demais para mudar de postura. Por isso, as malas precisavam ser feitas. Longe, sem sentir a paixão, a confusão que os olhares e as palavras dele provocavam nela, seria possível se achar. Tempo implacável. Cada ruga confirmando sua falta de coragem e necessidade de encontrar uma nova direção. Estava determinada e um dia, mudaria. Guardou as malas, secou as lágrimas e prosseguiu. Um dia aquela expectativa seria resolvida.


Andréa Laurindo

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