Idéias
Gol de Placa
27/06/2006
Outro dia li a crônica de uma colega dizendo que iria torcer pela Argentina, porque os brasileiros não estavam a fim de fazer show e o que valia era verdadeiro talento dos vizinhos portenhos. Realmente nada contra a digníssima jornalista. Ela tem o direito de expressar a opinião que lhe vier à telha. Mas eu não posso deixar de achar que ela foi um pouco volúvel ao dizer isso. Os Brasileiros não estão a fim de show? Somos pentacampeões do mundo, participamos com grande destaque de todas as copas, temos os melhores jogadores, ganhamos todos os jogos do campeonato de 2002 e os três do atual. No meu modo de ver, isso já é um show! Talvez quando resolveu vestir a camisa azul e branca do time Argentino, a nossa amiga tenha se esquecido desses detalhes. Ela só viu o pífio resultado de um a zero contra a Croácia e contra a Austrália e talvez tenha sido influenciada pela enorme propaganda negativa que a mídia empenhou-se em fazer: time se arrasta em campo, como jogaremos contra a Alemanha? Ronaldo, fora de forma, parecia perdido no jogo e etc. Tudo bem, nos primeiros jogos não houve gol de bicicleta, nem jogadas fenomenais, nem nada de tão maravilhoso quanto se via quando jogavam Pelé ou Garrincha. Mas a nossa seleção foi digna da vitória. Foi melhor que o adversário. Nossos jogadores tiveram a compostura de respeitá-los, de jogar sem faltas desnecessárias, de se empenhar durante os 90 minutos. Mais do que isso, nós não ouvimos uma palavra deles se gabando do favoritismo, ou menosprezando qualquer outra seleção. Para mim, isso demonstra maturidade e, principalmente, profissionalismo.
Sinceramente eu acho que já demos um show, e falo isso não por causa dos quatro a um sobre o Japão. Os demais escopos esportivos (gostou?) nos admiram, temem e imitam. Estamos no topo há décadas, isso tem que contar. Só porque um primeiro jogo não foi empolgante, deixamos de torcer por nossa seleção? Será que todos nós temos realmente a moral de dizer que nossos jogadores não estão se aplicando? Eu pessoalmente não consigo ser brilhante 100% do tempo (só 99,9 % , claro...), lhe dou os parabéns, admiradíssima, se você consegue. Porque será que Ronaldo tem que ser fenômeno em toda partida? A própria acepção da palavra fenômeno remete a idéia de algo que acontece esporadicamente, (fato ou acontecimento raro e surpreendente; prodígio, maravilha). Pessoalmente não acompanho futebol diariamente, mas acho que se um time paga um salário milionário para um jogador, é porque ele dá retorno. Os dirigentes não fariam isso por caridade. Eles querem ver a grana entrando no time, os torcedores satisfeitos, os contratos de patrocínio, etc. Nisso, minha colega jornalista argentina de carteirinha, Ronaldo é um fenômeno desde os 16 anos de idade, muito antes que eu ou você estivéssemos nos virando no mercado. Somos muito exigentes quando esperamos que ele saia fazendo 10 gols por partida - ou será que sentimos uma pontinha de inveja dos 90 milhões de dólares que ele representa e nos achamos no direito de cobrar dele um desempenho fabuloso?
Há também outros fatores para ponderar. Como nos demais setores da nossa vida, o futebol se globalizou. Enquanto na década de 70 apenas meia dúzia de seleções poderia entrar numa copa com condições de levar a Taça. Hoje, há muitos países que mesmo sem tradição no futebol - como dizem os locutores – estão aptos a oferecer resistência, no mínimo, aos campeões. Os times da atualidade estão todos - desde do Japão até o Brasil - muito bem preparados, tem equipamentos, tecnologia, estudos, equipe especializada, treinadores experientes. Não podem ser considerados amadores. Quase todas as seleções da Copa de 2006 exibem grandes jogadores, talentos individuais que dividem o campo com Ronaldo, Ronaldinho, Kaka e Cafu na Europa. Ou seja, nosso time canarinho não é uma potência indestrutível, embora ainda ofereça um futebol de qualidade inegável.
Tudo bem, o futebol ficou mais truncado. Há mais velocidade e menos dribles, mais força e menos habilidade, mas pelos menos o equilíbrio entre as equipes pode representar mais dedicação, mais opções de um bom espetáculo. Creio que vendo sobre esse aspecto, a pressão pela arte, pela goleada é desnecessária. É lindo ver Ronaldo e Ronaldinho dando chaleira, elástico, chapéu (procurei na internet pelos nomes dos dribles). Mas, a constância de resultados, a retidão, dentro e fora de campo, também o são. Parece-me que no futebol, como na vida, muitas vezes, nos interessamos apenas pelo mágico, o encantamento, o soberbo, nos esquecendo que é de grão em grão que a galinha enche o papo. Queremos, de repente, que nossa seleção faça um jogo memorável, recheado de situações dignas de replay e desprezamos o fato de que ela está disposta a ‘trabalhar’ suas vitórias – exatamente como fazemos em nossas profissões, relações e etc. Você não fica emocionado de saber que cara que ganha 190 milhões de dólares está arriscando seu meio de sobrevivência (as pernas, os pés) para defender a camisa do seu país? Pelo menos eu acho bacana. Os brasileiros que atuam na Europa e foram convocados por Parreira poderiam se recusar, poderiam se naturalizar espanhóis, italianos e etc. Afinal, se acontece uma contusão durante a copa, ou algo mais grave, os times europeus podem colocá-los na geladeira, eles podem se aposentar mais cedo.
Por essas e outras, eu não posso concordar com a jornalista que mudou de time (ainda mais para a Argentina). Sem fanatismos, acho que nosso futebol é uma coisa bonita, que deve nos orgulhar. Você já parou para pensar o quanto aqueles jogadores batalharam para chegar onde estão? Se você vai a uma academia – e não sofre dessa nova doença chamada vigorexia (vício em malhação) - deve saber como é sacrificante a musculação, imagine horas dela, seguida de corrida, futebol etc. Todo atleta que se preza tem que fazer uma preparação física extenuante, sem contar a alimentação balanceada, a concentração etc. Tá certo, ainda deve haver muitos Maradonas e maus exemplos nos times da vida, mas a maioria sua a camisa, dedica-se. Sabe aquela história de que um gênio é 90% transpiração e 10% inspiração? Se aplica muito bem à questão. Acho que esperar show é legal, afinal merecemos entretenimento. Agora trocar de time porque o Brasil saiu-se diferente do que imaginávamos, é um pouco demais. Meu coração é verde, amarelo, branco azul-anil, com muito orgulho e emoção. Quero que a Argentina faça a parte dela. Não vou rogar praga, nem nada, mas que o nosso time é melhor, disso eu tenho certeza. Com show ou sem ele, o que importa é o resultado final.
Andréa Laurindo