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Alma feminina
16/03/2005

De repente me veio uma idéia. Não só a idéia, mas o texto acabado. As palavras entravam na minha mente por todos os lados. Não pensava em outra coisa. Como se um espírito baixasse em mim, ditando cada oração. Era preciso pegar papel e caneta e escrevê-la. Caminhei a passos rápidos e ansiosos até a escrivaninha.
No meio do caminho, cruzei com o computador. Aí, veio aquele pensamento: “por que não escrever direto no meu arquivo de crônicas?”. Tomei a decisão. Sentei-me e liguei meu amigo. Distraí-me enquanto esperava que ele pegasse no tranco. Quando finalmente consegui abrir o arquivo, cadê a inspiração?
Não me recordava uma única palavra. Nem mesmo o tema da crônica que queria escrever. Fiquei irritado. Não me conformei. Ela viera do nada e cada palavra passara diante dos meus olhos, formando um texto acabado. Era só sentar e colocar no papel. Como é que a inspiração desaparecia assim, sem mais nem menos? Concluí que a culpa era minha: ela se sentira rejeitada.
Se entregara a mim totalmente e eu fora frio, calculista. Não correspondi com o mesmo fogo. Poderia tê-la só para mim naquele primeiro momento, sobre uma folha de papel. Com uma simples caneta. Mas não. Sentei-me. Busquei a tecnologia. Tive a audácia de esperar. De zerar a adrenalina. Quando baixei a guarda, ela vingou-se, deixando-me só. Neste momento, descobri que a “inspiração” tem a alma feminina.
É passional. Não aceita dividir. Se quer, quer na plenitude. No mesmo instante. Não dá para adiar. Se não for assim, não há paixão. É inteligente. Nos domina, mas nos concede a sensação de estarmos no controle. Não percebemos, mas ela surge quando quer. Desaparece quando bem entende. Não há meio termo. Não há como ter uma mulher pela metade. Não há como escrever metade de uma crônica.
Ou estamos inspirados, fechamos os olhos e botamos fogo no relacionamento, ou nem iniciamos a relação. Aconteceu comigo: o teclado ali, na minha frente e eu, nada. Neguei fogo. Num momento, cronista e computador são pólos opostos que se atraem. No outro, são pólos idênticos que, apesar de toda simbiose não conseguem entrar em sintonia.
Assim, descobri que para ser escritor, é preciso viver um caso de amor com sua inspiração. Como todo caso de amor, ter suas brigas e conciliações. Quando ela chegar, é preciso morrer de paixão. Abraçá-la intensamente. Esquecer das coisas básicas da vida. Comer e dormir passam a ser acessórios desnecessários. Escrever passa a ser obsessão. Há que se aproveitar aqueles momentos que parecem ser únicos, tal a felicidade com que se escreve.
Quando a inspiração desaparecer, o escritor não deve odiá-la. Mas, de olhos abertos ou fechados, deve buscá-la incansavelmente. Visitar cada neurônio de seu cérebro ou o fundo de um copo. No desespero, deve rogar a Deus que traga sua musa inspiradora. Se demorar, deve amaldiçoá-la ou gritar aos quatro cantos seu amor incondicional.
O verdadeiro escritor deve saber que seu desespero é apenas um ritual de acasalamento. Deve saber que sua musa é teimosa. Enquanto sente que está sendo procurada, não se digna a enviar notícias. Somente quando é esquecida, é que dá o ar da sua graça. Mas, é preciso seguir as leis da natureza. Ela tem que sentir-se desejada em sua plenitude. E aí, amigo, sai de baixo! Quando finalmente estes dois espíritos iluminados se encontrarem, por alguns momentos eternos, o Etna e o Vesúvio em erupção podem ser confundidos com a chama sublime e morna de uma luz de vela.

Dirceu Herrero Gomes
Nas asas da Felicidade


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