Idéias
As quatro estações
Tudo fazia crer que seria uma manhã como outra qualquer. Parei o carro a
quatro quadras do escritório. Liguei o alarme e caminhei calma e lentamente. A calma contrastava com tudo que me esperava. Muito, muito
trabalho. Muitas decisões.
Tantos problemas me esperavam, que eu procurava me ater à beleza do dia, da
natureza, aos encantos sem fim da minha cidade. Não que eu não goste de
trabalhar. Confesso que, em geral, o trabalho me atrai. É um vício. Sem
ele, não sou nada. É como seu eu quisesse provar que o ele realmente "enobrece o homem".
Mas, o trabalho estaria a minha espera, estivesse eu preocupado ou não. Por
isto, preferi não sofrer antes do tempo. Não, caramba, trabalho não é
sofrimento! (Será que as palavras estão me traindo?) Eu até gosto. É que...
tem dias que não foram feitos para o trabalho. Mas, isto não está na CLT.
Então, lá vamos nós.
Passei pela sala da secretária e convidei-a para despacharmos. Lá pelo meio
de nossos assuntos, entra o gerente. Preocupado com a "falta de
organização" de um determinado setor, inicia um festival de lamurias como
se eu fosse o muro das lamentações. Após uns 15 minutos, a secretária,
constrangida, pede licença e sai. Digo que depois a chamo. Isto demora mais
uns 30 minutos. "Perco" 45 minutos da manhã acalmando o desesperado gerente.
Ainda tentava recuperar o tempo perdido quando entra a estagiária do
departamento de jornalismo. Me traz os últimos artigos sobre a empresa
publicados na imprensa. Observo que está bonita, com uma blusa vermelha
combinando com o batom. Concluo que há vários dias ela está assim, de bem
com a vida. Sorridente, corta meus pensamentos e diz que seu "sonho vai se
realizar".
Ela percebe que suas palavras surtiram efeito e responde a minha
interrogação muda. "É que vou me mudar para Curitiba e casar". Tiro os
óculos. Não sei bem por que. Talvez para não ter que fingir cara de
espanto, já que nada na vida me espanta. Se alguém chegar e me informar que
o mundo vai acabar em dois minutos, vou perder 60 dos últimos 120 segundos
da minha vida pensando o que fazer no último minuto. Sem me descabelar.
Sorridente, a estagiária engata uma quinta e começa a me explicar um monte
de coisas. Em poucos segundos, me conta alguns problemas enfrentados pela
família, diz que namora um "cara" de Curitiba há três meses, que este
namoro à distância está caro, que vai transferir sua faculdade de
jornalismo, que ele tem uma vida estável financeiramente (mas isto não
implica que ele vai sustentá-la) e que sua decisão vai ajudar naqueles
problemas da família que ela contou lá atrás.
Pra mim, profissionalmente, só ficou o fato de que ela vai se casar e se
mudar. Isto implica que terei que conseguir outra estagiária.
Mas, lembram-se do início desta crônica? Eu estava mais para cronista que
para executivo. Penso em agir como um cara de 36 anos. Afinal, tenho 36
anos. Mas, resolvo agir como um cara de 36 anos irresponsável. Digo que se
tivesse a idade dela, faria o mesmo que ela. Afinal, ela está numa
encruzilhada com mil opções a seguir. E é melhor não ficar parada. O lema é
seguir sempre em frente. Afinal, quando a gente age, nunca se arrepende. Se
houver arrependimento, é porque a gente não soube entender as lições que a
vida nos dá.
Pensando bem, se ficarmos parados na encruzilhada, também aprendemos. Mas
deve ser pior pensar que agimos errado porque não fizemos nada. Então, "faça sempre", penso. Faça, antes que as raízes da vida, inexoráveis,
lancem seus tentáculos sobre suas pernas. Faça, antes que 36 verões,
invernos, outonos e primaveras, em outra ordem, bem entendido, levem seus
sonhos. Antes que você se torne um cidadão "responsável".
Como conselhos de um respeitável senhor de 36 anos, fiz apenas três.
Primeiro, tenha certeza de uma coisa: o rapaz está realmente a fim de
encarar o casamento? Se estiver, ok. Segundo, deixe-o consciente de como é
a vida de jornalista. E, finalmente, neste início de vida a dois, evite filhos.
Ela me ouviu como a um conselheiro. Acho que tenho esta característica.
Talvez, a vida ao longo de 36 primaveras tenha me conferido o dom de ser
mais velho. De saber um pouco mais das coisas. Talvez, eu ainda não tenha
percebido o quanto as estações do ano agem sobre nossos corpos e mentes. E
espero não perceber tão cedo. E continuar, mesmo assim, a dar conselhos. E
continuar a observar as coisas belas da vida. Mesmo quando eu tiver muito
trabalho. Como hoje.
Por falar em trabalho, o almoço me espera. Mas, não se preocupem. Há dias
em que as noites foram feitas para trabalhar.
Dirceu Herrero Gomes
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