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O ciclo da felicidade
16/03/2005

Atenção navegantes: o paraíso não existe. Estive lá e sei disso. Como? Se o paraíso não existe, como é que estive lá? Fácil: não existe este paraíso que todos sonham, onde a felicidade plena é permanente. A felicidade vem em doses homeopáticas. Quando você menos espera, ela vai embora. E sabe o que mais? Isto é ótimo. Ah, você não acredita?
Pois então, imagine como você se sentiria se fosse feliz 24 horas por dia. No primeiro, segundo dia, tudo bem. Mas, a partir do terceiro, a rotina começa a te incomodar. No quarto, você torce por um probleminha qualquer que te tire da mesmice. No quinto, você sobe as paredes de tédio.
Mas, ao primeiro problema, sem querer, você vai amaldiçoa-lo. Afinal, você o desejou inconscientemente. Você queria algo que te tirasse daquela mesmice que era a felicidade. Só não sabia o quê exatamente. E, como não é possível rimar problema com felicidade, quando o primeiro chega, a segunda vai embora.
Pronto, você saiu daquela fase de torpor, de delírio. Agora, você vai começar a buscar a felicidade novamente. Surpreso? Calma, isto é paradoxalmente natural. Faz parte do ser humano. Nós afastamos a felicidade com pedras que nós mesmos colocamos no nosso caminho. Repito: inconscientemente.
Isto mesmo: a felicidade está dentro de nós. Mas não suportamos a mesmice, a rotina. Somos eternos insatisfeitos. E isto dá o tempero da vida. Assim, nos impomos uma série de sacrifícios para que possamos sentir a felicidade em sua plenitude, mesmo que seja por tempo determinado.
“Que o amor seja eterno enquanto dure”. Foi mais ou menos esta a grande verdade dita pelo poeta Vinícius de Morais. É isto. É preciso curtir ao máximo a tua dose de felicidade. Como se fosse perene. Assim, quando ela terminar, você vai sentir-se revigorado. Pronto para ficar um tempo à mingua. Afinal, você não sabe quando ela retornará.
Ah, isto! Ela chega sempre de surpresa. Não adianta esperar. Se você aguarda ansioso, aí que ela não vem. Você cria expectativa. Fantasia. E ela detesta estas coisas. Quer chegar de repente, quando você já não acredita mais que ela exista. Vem toda prosa. Te deixa em alfa. Te suga. Te usa em todos os seus sentidos.
Aí, quando sente que você já está desdenhando dela, ela desaparece. Assim, de repente. E você, seguindo o ciclo natural da vida, começa a busca-la intensamente. “Onde foi que a perdi?”. Não, não adianta procurar. Deixa que ela te acha. Neste momento, ela está em outra dimensão, aguardando, esperando o momento certo de voltar.
Ela é tão boa, que Deus ao criar o mundo, nos deixou de legado poucas doses. Para que não nos embriaguemos demais. E ela migra de um para outro, conforme sua conveniência. Assim, amigo, quando sentir-se feliz, não pense que encontrou a felicidade eterna. Não pense, viva!

Dirceu Herrero Gomes
Nas asas da Felicidade



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