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Contradição
16/03/2005

Ah, meu canário, da cama te ouço neste feriado preguiçoso da padroeira de Maringá e me flagro admirando seu canto. Triste contradição esta. Já propaguei entre os amigos, e o papel já aceitou várias vezes minhas convicções contrárias a sua prisão.
Me surpreendo acreditando por um momento em sua felicidade. Que ser infeliz teria um canto tão intenso, tão belo, tão cheio de vida? Meu pensamento voa pelo tempo e busca no passado o canto dos negros escravos. Também não eram belos? Mais que canto, eram gritos em busca de liberdade.
Quanta solidão existe no blues americano! Quanta criatividade em nossas músicas de protesto, nos distantes anos 60 e 70. A criatividade aflora nos momentos de repressão, de dor. Já admirei muitos trabalhos manuais de homens encarcerados, seja entre quatro paredes, seja dentro do seu próprio mundo.
Você há de entender, meu canário. Fico na dúvida se o estresse é maior aqui fora, nesta pseudo liberdade, envolta em violência, disputas e hipocrisia, ou entre estas pequenas barras de arame, que limitam seu mundo.
Talvez seja fácil, para quem está aqui (com o poder de se encantar com o nascer do sol, de sentir o sabor do vento no rosto, de amar, enfim de ir e vir), pensar em contradições como esta.
Mas, também há de ser fácil para quem não sofre as pressões dos pseudos-homens-livres, pensar que estes são felizes porque têm o direito de ir e vir.
Este direito não dá passe livre para a felicidade. Não imuniza perante injustiças. Não livra de decepções. Não garante o direito de amar e ser amado.
Este mundo, meu canário, escraviza corações e mentes. Cerceia o lado criativo. Nos coisifica. Nos condiciona à busca do dinheiro, do poder, do luxo. Quando não, nos limita a coisas básicas como água, alimento e teto. Ou ainda, não nos dá nem a dignidade da escolha. Do livre arbítrio.
Este mundo é feito de ilusões. É feito de matéria. Este mundo deixa de lado a simplicidade, é virtual, é global, é casca, é aparência.
Portanto, meu canário, cante. Encha esta casa com seu misto de tristeza e melancolia; deboche e riso, criatividade e fuga.
Pois que somos iguais. Dois prisioneiros, cada qual condicionado a sua prisão. Se você ganhar a liberdade, morrerá de fome ou nas garras do primeiro gavião que perceber sua fragilidade. Se eu ganhar a liberdade, serei um louco solitário a vagar por este mundo.
Somos iguais, com a diferença de que não consigo alcançar notas tão elaboradas, que formam uma melodia tão próxima de Deus.
Cante sim, meu canário. Deixe de lado sentimentos tão contraditórios e cheios de auto-comiseração como os meus, e traga um pouco de alegria a este imenso mundo dos homens.

Dirceu Herrero Gomes
Nas asas da Felicidade


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