Idéias
Cronistas
Jamais consegui compartilhar com alguém os momentos em que me vem a
inspiração para escrever crônicas. As idéias chegam quando estou sozinho. E
sozinho tenho que estar quando as transcrevo. Geralmente, no silêncio e
privacidade das madrugadas.
Esta necessidade de isolamento fazia com que me sentisse em débito com a
família. Até que comecei a perceber algo em meu "guru" Rubem Braga. Em suas
crônicas, ele nunca citou esposa ou filhos. Apenas namoradas, amantes e
amores platônicos. Me lembro de uma crônica fantástica que ele fez para uma
filha que nunca teve. Num primeiro momento, parece que o Braga poderia ser
um pobre e infeliz solitário. Não creio nisto. A felicidade de suas
crônicas, leves, poéticas, sensíveis, me fazem crer que ele foi um dos
caras mais bem resolvidos do planeta.
Mas, o que me faz citá-lo neste momento é o aparente desapego do cronista
com sua família. Ao constatar esta característica no Braga, me senti um
pouco aliviado. Será esta a sina dos cronistas (mesmo aqueles medíocres
como eu)? Tive esta "certeza" ao saber de uma crônica de outro Rubem, o
Fonseca. Ele teria escrito que para ser cronista é preciso sair pelo mundo
como andarilho. E, todos sabem, os andarilhos são solitários - o máximo que
se permitem é a companhia de um cão, desde que seja fiel e maltrapilho como
o dono.
O tema "cronista solitário" aguçou minha curiosidade e percorri meus poucos
livros à procura de alguns autores do gênero. Folheei várias obras. O
Carlos Heitor Cony em dado momento, diz que chegou aos 50 anos vindo de uma
separação recente. A segunda. Mas, não chegou aos 51 anos separado.
Traidor. Retiro-o do rol dos "cronistas solitários". Aliás, sua narrativa
não faz meu estilo. Logo, em geral, não gosto de suas crônicas.
Abri o livro "Conversa de Botequim" de um cronista local. Messias Mendes.
Conheço-o bem. E é casado, com três filhos. Bom, só que ele faz textos
políticos, com análise crítica da realidade. É um outro estilo. Descarto o
bom Messias. Chego ao Osvaldo Reis, outro escritor local. Escreveu sobre o "folclore político". Se enquadra bem como "cronista solitário".
Está sempre rodeado de amigos. Se conta piadas, ri. Se não conta, seu olhar
se perde no nada. Triste. Imagino-o a contemplar a lua cheia nas
madrugadas, enquanto busca a lembrança de algum "causo" para escrever.
Penso que não deve usar um computador, tão romântico e nostálgico deve ser.
Vejo meu livro, perdido entre os outros. "Cartas para Marília". Será que
alguém, lendo as crônicas que fiz para minha filha, "verá" um autor
solitário? Não. Com certeza aquele Dirceu também traiu a sina dos
cronistas. Vive duas vidas. Uma para a família, para a sociedade. E outra
de sonhos.
Sonha, seja sozinho nas madrugadas, ou mesmo acompanhado em reuniões de
trabalho ou família. Em qualquer momento, tem o dom de se perder em
pensamentos distantes, procurando em algum lugar a inspiração. Guarda na
memória, num guardanapo ou qualquer outro papel, as idéias que no momento
certo irão compor uma crônica.
Por isto, se alguém me surpreender com olhar perdido, distante, não deve me
tomar por louco. É apenas o "cronista solitário" tomando emprestado meu
corpo cansado para perseguir seus sonhos.
Dirceu Herrero Gomes
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