Idéias
Dependência psicológica
Você chega da escola às 17:30 horas. Em geral,
está supercansada, fica terrivelmente chata e dorme.
Às vezes levanta lá pelas 9 ou 10 da noite e fica
acordada até meia-noite. Neste feriado de carnaval eu
e mamãe descobrimos uma maneira de mantê-la elétrica.
É só fazê-la dormir após o almoço.
Quando acorda, você fica bem-humorada. Elétrica
como se estivesse no “220”.
A estratégia tem seu lado bom e o ruim. É ótimo
vê-la brincando, sorrindo, tagarelando, correndo. Por
outro lado, você não nos deixa em paz um segundo.
Quer que fiquemos ao teu lado o tempo todo; se tentamos conversar
entre nós, você não deixa: faz perguntas,
mostra suas proezas, pede doce, salgado, água, bolacha,
faz xixi, cocô, enfim, inventa qualquer negócio
para chamar nossa atenção.
E irrita. Nestes momentos, me lembro da minha tese sobre sermos
teus reféns. Ou escravos, quem sabe. Vivemos para você.
Não é que ficamos o tempo todo ao teu lado. Mas,
longe, pensamos em você. É uma sensação
estranha. Às vezes, perto, ficamos irritados, queremos
distância. Longe, ficamos com peso na consciência,
nos lembramos só dos momentos bons, da tua carinha sorridente,
das brincadeiras, da Marília ideal.
Esta é a pior dependência. A psicológica.
Estes dias, você e mamãe foram para a casa do vovô
e eu fiquei aqui para disputar um campeonato de futebol. Durante
o jogo, vi um rapaz brincando de bola com o filho. Era um sábado
à tarde. Fiquei imaginando se você não existisse.
Que triste seria. E desejei que o jogo terminasse logo para
que eu pudesse pegar a estrada e encontrar você e mamãe.
8/03/2000 – 10:13 horas
Dirceu Herrero Gomes
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