Idéias
Embriaguez
Raramente me sinto embriagado pela vontade de viver como hoje.
Não aquela vontade de lances radicais, de adrenalina
a mil. É algo manso, calmo, sereno. Mais para veleiro
que para prancha de surfe. É nisto que penso enquanto
entorno um cálice de vinho.
O cella umedece minha boca. Tem o gosto adocicado da felicidade.
Desce macio pela garganta e sobe até a alma. Fecho os
olhos e presto atenção na letra e na melodia de
uma das músicas que fazem a trilha de fundo deste domingo
perfeito.
Nostálgico, o Quarteto em Cy canta os tempos dourados.
“Ainda me lembro, Maria, na fotografia, estamos felizes...
parece bolero...”. As imagens se confundem. Penso no casal
da fotografia. Na felicidade. Nos encontros e desencontros da
vida.
Sem pedir licença, o cheiro de vários aromas chega
até a sala. Vem da cozinha. Mais precisamente do molho
do macarrão. É um aroma bom, que me traz ótimas
perspectivas. Sei que em alguns momentos vou saborea-lo. Um
pensamento que me agrada muito.
Saio em busca de vinho. Passo pela sala de tv onde o desenho
animado destoa do clima romântico e nostálgico.
Na cozinha, encho duas taças. Não resisto a um
contato mais direto com sua pele. Brindamos à felicidade
e selamos nosso pacto com um beijo.
Vou até a varanda. Quero sentir todos os momentos em
sua plenitude. E ter a certeza de que lá fora minha realidade
será a mesma. O dia é claro. O céu está
azul e cheio de vida, imposta pelo sol. Uma brisa fresca dá
o tom ideal deste final de manhã.
As ruas estão vazias. Parece que todos se recolheram
em suas casas para curtir este clima positivo que paira no ar.
Penso que hoje ninguém será capaz de brigar. Não
sem antes cometer um grande sacrilégio. Pois se Deus
fez momentos como este, foi para elevar nossos espíritos.
Domingo, 28/02/01
Dirceu Herrero Gomes
Nas asas da Felicidade
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