Idéias
O marketing do bocejo
Descobri as técnicas do marketing aos 11 anos, na antiga quinta série
ginasial. Estávamos na temível aula de matemática fazendo cálculos não
menos terríveis. Na sala, os números absorviam corações e mentes. Todos
estavam calados, paralisados, concentrados. Todos, menos eu. Eu sabia que o
sinal ia bater e a professora só corrigiria os exercícios na próxima aula.
Além disto, era mais fácil sonhar com ela, minha musa inspiradora.
Por outro lado, eu sabia que ela me considerava especial. Havia tirado esta
conclusão a partir dos olhares maternais dela em minha direção. Esta
constatação fez com que naquele dia eu lançasse um desafio a um colega:
"quer ver a professora se comover comigo?". O cara duvidou. Me revirei na
carteira. Cerrei os olhos, respirei fundo ao mesmo tempo em que abria uma
enorme boca, fechada providencialmente pela mão direita com os dedos
recolhidos. E soltei um bocejo mudo.
Meus movimentos quebraram aquele marasmo e inevitavelmente chamaram a
atenção dela. Nossos olhares se encontraram. Fechei os meus, apresentando
um cansaço freqüentemente encenado. Ela me olhou com um sorriso bastante
sincero e perguntou se eu estava cansado, com sono. Respondi que sim, que
acordava cedo para trabalhar.
O diálogo rápido chamou a atenção da classe. Vários colegas também me
olharam. Me fuzilaram com olhos de inveja. Dela, recebi um outro sorriso,
cúmplice e aprovador. Ela girou o pulso e disse que já ia bater o sinal.
Vitorioso, pisquei para o colega de lado comemorando meus 15 segundos de
glória.
Contradição
Ah, meu canário, da cama te ouço neste feriado preguiçoso da padroeira e me
flagro admirando seu canto. Triste contradição esta. Já propaguei entre os
amigos, e os papéis já aceitaram várias vezes minhas convicções contrárias
a sua prisão.
Surpreendo-me acreditando por um momento em sua felicidade. Pois, que ser
infeliz teria um canto tão intenso, tão belo, tão cheio de vida?
Meu pensamento voa pelo tempo e busca no passado o canto dos negros
escravos. Também não eram belos? Mais que canto, eram gritos em busca de
liberdade.
Quanta dor e solidão existe no blues americano! Quanta criatividade em
nossas músicas de protesto, nos distantes anos 60 e 70. A criatividade
aflora nos momentos de repressão, de dor. Já admirei muitos trabalhos
manuais de homens encarcerados entre quatro paredes.
Você há de entender, meu canário. Fico na dúvida se o estresse é maior aqui
fora, nesta pseudo liberdade, envolta em violência, disputas e falsidades,
ou entre estas pequenas barras de arame, que limitam seu mundo.
Talvez seja fácil, para quem está aqui (com o poder de se encantar com o
nascer do sol, de sentir o sabor do vento no rosto, de amar, enfim de ir e
vir), pensar em contradições como esta.
Mas, também há de ser fácil para quem não sofre as pressões dos
pseudos-homens-livres, pensar que estes são felizes porque têm o direito de
ir e vir.
Este direito não dá passe- livre para a felicidade.
Não imuniza perante injustiças.
Não livra de decepções.
Não garante o direito de amar e ser amado.
Este mundo, meu canário, escraviza corações e mentes. Cerceia o lado
criativo. Nos coisifica. Nos condiciona à busca do dinheiro, do poder, do
luxo. Quando não, nos limita a coisas básicas como água, alimento e teto.
Ou ainda, não nos dá nem dignidade.
Este mundo é feito de ilusões. É feito de matéria. Este mundo deixa de lado
a simplicidade, é virtual, é global, é casca, é aparência.
Portanto, meu canário, cante. Enche esta casa com seu misto de tristeza e
melancolia; deboche e riso, criatividade e fuga.
Pois que somos iguais. Dois prisioneiros, cada qual condicionado a sua
prisão. Se você ganhar a liberdade, morrerá de fome ou nas garras do
primeiro gavião que perceber sua fragilidade. Se eu ganhar a liberdade,
serei um louco solitário a vagar por este mundo.
Somos iguais, com a diferença de que não consigo alcançar notas tão
elaboradas, que formam uma melodia tão próxima de Deus.
Cante sim, meu canário. Deixe de lado sentimentos tão contraditórios e
cheios de auto-comiseração como os meus, e traga um pouco de alegria a este
imenso mundo dos homens.
Dirceu Herrero Gomes
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