Idéias
A mulher que passa
Há tempos, anos mesmo, descobri que poderia me apaixonar
novamente. Naquela época, estava livre para o amor. Não
que a paixão seja definida conscientemente. Ou que a
mulher amada seja uma escolha nossa. Talvez o correto seria
dizer que eu estava novamente “apaixonável”.
Creio que devo me explicar melhor.
O fato de meu coração estar ocupado não
é uma condição única para não
me apaixonar. Posso e vou me apaixonar, sim. E cabe a mim decidir
se serão paixões passageiras ou não. E
neste momento evoco J.G. de Araújo Jorge, que escreveu
um poema para a mulher que passou. Li há muito tempo
e se minha memória não me trai, uma mulher passou
por ele, que se apaixonou intensamente. Mas nunca mais a viu.
Ir ou não ir atrás da mulher que “passa”
por nós depende de uma série de fatores. No meu
caso, depende muito da condição do coração
no momento: se está ocupado (e há muito está),
sofro mas não vou atrás. Resistir causa uma verdadeira
batalha interna, pois quando meu coração está
ocupado há algum tempo, as paixões vêm com
mais frequência. Acuso-o de ser volúvel e diariamente
dispenso inúmeras possíveis paixões.
Quando fico “apaixonável”, meu coração
se desforra e passa a ser mais exigente. Eu o perdôo e
culpo o “fantasma” da paixão antiga, aquela
que durou algum tempo e se foi. Foi, mas deixou suas marcas.
E o coração, escaldado, se recusa a substituí-la.
Sempre encontra um defeito nas candidatas que meus olhos carentes
insistem em selecionar.
A loira não dá porque é oxigenada. A baixinha,
além de baixa, assiste ao Faustão. A morena é
alta demais. A do vestido vermelho é muito bandeirosa.
A dos olhos verdes adora pagode... Chego a conclusão
de que apaixonar-se não é tão fácil
quando se tem um coração ferido, vingativo e exigente.
Mas continuo minha peregrinação, com a promessa
de que, ao mínimo sinal verde dele, vou atrás
da primeira mulher que passar.
18/02/99 (Quarta-feira de cinzas).
Dirceu Herrero Gomes
Nas asas da Felicidade
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