Idéias
No céu
16/03/2005
O chão molhado era a prova da chuva fria da madrugada,
que o sono tranqüilo e o aconchego de nossas camas secas
e quentes nos impediram de ver. O céu nublado, a evidência
da água que estava por vir novamente. Caminhávamos
lentamente pelo Bosque das Grevíleas. Íamos devagar
porque quanto mais demorássemos, mais eu ficaria ao teu
lado.
Aquele bosque, na sua tristeza sem fim, me traz lembranças
alegres. Dos tempos em que moramos ali em frente. Primeiro,
eu me mudei. Depois veio a mamãe. E para completar, você,
que não chegou a ver nossa casinha. Tão simples,
mas tão querida. Afinal, ali você foi concebida
e, quando deixamos o lugar, era a esperança de felicidade
no ventre materno.
Carros velozes atravessam a rua Pio XII e me convidam a voltar
ao presente. Olho para você e sinto que valeu a pena.
Aguardamos o trânsito se acalmar e voltamos a caminhar
na direção da escola. Você nota o cadarço
desamarrado. Eu já havia notado. Mas calei-me diante
do perigo de pararmos em meio à rua movimentada.
Mas você, como diz sua mãe, não deixa passar
nada:
_ “Pai, meu cadarço desamarrou”.
_ “Quando chegarmos na calçada nós paramos
e papai amarra para você”.
_ “Por que tem que chegar na calçada?”
_ “Por que se a gente parar na rua, vem um carro e atropela
a gente”.
_ “Aí você vai amarrar meu cadarço
só no céu?”
...
Dirceu Herrero Gomes
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