Segredos
16/03/2005
Todos dormem na casa tranqüila. Menos eu, claro. As cenas de um filme, que acabei de assistir, me vêm à cabeça. “Segredo’. Uma boa trama, sem grandes filosofias. Decido observar a chuva intensa que cai – hoje faço questão de ser redundante: ajuda a passar o tempo e a aumentar o texto. Na varanda, não resisto à rede que me convida para um balanço.
Há muito não tinha uma noite tão doce. A brisa está deliciosa. Vez em quando um pequeno vento balança a samambaia sobre minha cabeça.
Lá fora, a roseira, que insiste em nos presentear com dezenas de rosas vermelhas durante o ano todo, se curva sob o peso da água.
Ganhamos a muda da roseira da Dona Geni e seu João, nossos últimos senhorios. Retribuímos a gentileza doando novas mudas para um sem número de pessoas.
Não é tarde. Pouco mais de 10 horas. Mas a única rua de nosso condomínio esta vazia. O chão brilha como nos filmes de Hollywood.
Ao lado, os pinheiros dançam ao sabor do vento. Prá lá e prá cá. Estão ali há três anos, mas não cumprem a função principal a que vieram. Deveriam criar uma barreira visual no limite da casa vizinha. Mas, não cresceram além de 50 centímetros. Alguns entendidos diagnosticaram que a culpa é da luz do sol. Ela não chega até eles quando precisam.
Os pingos de ouro entre o jardim e a varanda deram mais resultado. Destacam a cor amarela de suas pontas. As podas constantes dão forma à planta. Também gosto muito da palmeira no meio do jardim. Observo as outras casas e não vejo planta tão vigorosa e bela quanto a nossa.
São momentos de felicidade, em que penso que minha família está dormindo em segurança, enquanto estou ali, vigilante. Faço um breve balanço da vida. Há altos e baixos. Me pergunto porque não temos o direito de viver 100% de momentos doces como este.
Que segredos a vida guarda que não quer nos revelar? Quem sabe se esta noite, esta chuva, estes momentos se estendessem por todo o tempo...
Sinto que cheguei numa encruzilhada. Para fugir dela, me lembro que amanhã será um novo dia. E que, apesar da magia desta noite de chuva, devo acordar cedo. Vou, imaginando que alguém poderia transformar a terça-feira num feriado permanente. E que este estado de felicidade também fosse infinito.
Dirceu Herrero Gomes
Nas asas da Felicidade