Idéias
Absolutamente Natural
05/08/2006
- Ana! Está vendo aquele homem parado ali na esquina?
- Homem? Ali não tem ninguém, Jairo!
- Ana! Pelo amor de Deus! Você está ficando cega? Ele está bem ali, vestido de preto. Usa um chapéu esquisito e tem um olhar de maluco. Deve ser maluco mesmo.
- Maluco é você, Jairo!
- Fique aqui. Vou falar com ele.
- Você está me assustando, criatura. Quer parar com isso?
- Já volto. Espera aí.
Ana ficou parada no meio da noite, vendo seu marido caminhar em direção ao nada.
Repentinamente, ele pareceu mudar de idéia e começou a se afastar muito devagar, sempre de frente para o que quer que fosse.
E quando se aproximou de Ana, estava muito pálido e completamente trêmulo.
- Ana! O que é aquela coisa?
- Jairo! Você está branco feito um fantasma!
- Fantasma! É isso! Era uma alma do outro mundo, Ana! Só pode ser! Deus do céu! Que sensação horrível! Ele passou através de mim.
- Querido! Você sabe que eu não acredito nessas bobagens. Acho melhor você conversar com o Dr. Olavo.
- Dr. Olavo é psiquiatra, Ana.
- E é justamente de um psiquiatra que você está precisando, Jairo.
- Não estou doido, não! Eu vi aquele homem! Eu vi!
Ana ainda tentou esticar o assunto, mas, Jairo preferiu ficar em silêncio, ruminando os seus pontos de interrogação.
Em seus quarenta anos, era a primeira vez que se deparava com o sobrenatural, ou qualquer coisa que o valha.
Não pregou os olhos durante a noite e quando o dia nasceu, ele estava exausto.
Foi para o trabalho arrastando as perguntas e o cansaço.
- Não dormiu bem?
- Não.
- Algum problema?
Jairo olhou para a secretária.
Queria contar.
Queria saber o que ela pensava sobre essas coisas do outro mundo.
Mas, lembrou-se do comentário de Ana e resolveu se calar.
Não gostaria de ser chamado de maluco novamente, e muito menos no ambiente de trabalho.
Fechou-se em sua sala.
Aos poucos, os inúmeros afazeres da manhã foram afastando as lembranças da noite.
E quando olhou as horas, já passava, e muito, do meio dia.
Sentiu-se faminto.
Ganhou a rua, e o hálito fumegante do sol lambeu seu corpo.
Entrou rapidamente no restaurante de todos os dias e foi atingido pelo frescor do ar condicionado, pelo odor da comida rotineira e pelo burburinho das pessoas.
Sentiu-se acalentado e protegido pelo arrastar das cadeiras, pelo vai e vem das bandejas, e pelas risadas e conversas de toda aquela multidão.
Enquanto devorava a salada colorida, deixou que seus olhos percorressem o local.
Gostava de olhar as pessoas.
Era um voyeur de expressões fisionômicas.
Tentava adivinhar os verdadeiros pensamentos de cada ser humano, sempre escondidos sob máscaras despreocupadas.
E nesses momentos lúdicos, a sua máscara agarrava-se à própria face, e seus olhos bailavam suavemente, de lá pra cá, de cá pra lá, sem fixar olhar algum.
De repente, o colorido da salada tornou-se negro.
Ali estava ele, o homem esquisito, segurando o chapéu com ambas as mãos.
Tão próximo e tão calado!
Seus olhos, negros como a sua roupa, soltavam chispas de ódio e impaciência.
Jairo levantou-se transtornado.
Atravessou o restaurante, esbarrando em coisas e gentes, pagou a conta no caixa e correu para a calçada.
Mas, o homem de preto materializara-se bem à sua frente, barrando passos e qualquer intenção de fuga.
- Preciso de ajuda!
- Quem é você? Por que me persegue?
Da mesma forma como viera, o homem se fora, deixando Jairo num pânico quase incontrolável.
- O que houve com você?
- Marta! Podemos conversar? Pelo amor de Deus! Preciso falar com alguém! Vamos até a minha sala, por favor!
A secretária estava realmente preocupada com o chefe, afinal, trabalhava com ele há muito tempo e sabia do seu temperamento estável, alegre e cordial.
- Marta! Você me conhece há bastante tempo, certo?
- Certo, chefe.
- Você tem algum conhecimento sobre fantasmas?
Marta riu.
E Jairo, exasperado, deu um soco na mesa.
- Eu não deveria ter falado nada com você!
- Eu estava esperando qualquer outra coisa, chefe, menos isso. Desculpe. Na verdade, eu conheço um pouco sobre o assunto. O que gostaria de saber?
- Tem um homem me seguindo desde ontem. Na verdade, ele simplesmente aparece e desaparece. Passa através de mim. Me causa horror. O que ele é? O que ele quer?
Marta ficou pensativa por alguns minutos.
- Tenho a impressão de que esse espírito precisa de ajuda.
- Ajuda pra quê?
- Não sei. Mas, você precisa perguntar a ele. Ter muita calma e perguntar. Só assim vai poder resolver este problema.
- Marta! Não fui educado para acreditar em fantasmas. Como posso ter calma? Minha mulher acha que estou louco e me mandou procurar um psiquiatra! Psiquiatra! Estou apavorado, se quer saber!
- Chefe! Veja bem! A primeira coisa que você precisa compreender, é que somos todos iguais, com apenas uma diferença: alguns vivem sobre o planeta e outros, além. Os que morreram para a vida, como dizem, na verdade continuam tão vivos, ou mais, do que nós. Não tenha medo. Ele é um homem como você. Apenas não possui mais o corpo físico, entende?
- Isso é loucura! Talvez minha mulher esteja certa!
Marta riu novamente.
- Está tudo bem, chefe. Fique sossegado. Aos poucos vai compreender e se acostumar com a idéia. Não existe sobrenatural, como falam.Tudo é absolutamente natural.
- Acho que vou levar você ao psiquiatra comigo, Marta!
Sempre bem humorada, a secretária não se conteve e deu boas gargalhadas.
E Jairo começou a se sentir um pouco mais tranqüilo.
- O que devo fazer, então?
- Da próxima vez, não entre em pânico. Apenas converse com ele, com muita calma. Ele precisa da sua calma para poder se expressar.
- Vou tentar! Vou tentar! Cristo! Que loucura!
O dia mergulhou no entardecer.
A noite trouxe muitas estrelas e a lua estava tão cheia, mas, tão cheia, que dava a impressão de querer parir outra lua a qualquer instante.
Seria uma linda noite se más notícias não tivessem chegado através do ruído estridente do telefone.
- O Estevão? Claro que vamos! Vou avisar o Jairo. Tchau.
- O que houve, Ana?
- Querido! O Estevão enfartou. Está no hospital. Precisamos ir pra lá.
- É grave?
- Parece que sim. A Júlia está desesperada.
Jairo deixou que seus pensamentos rolassem, lado a lado, com as rodas velozes do carro.
Estevão, seu melhor amigo! Seu companheiro de tantas horas! Gordo e bonachão! Bebia e comia numa voracidade alarmante. Grande sujeito!
- Que merda! Ele não pode morrer, Ana!
Ana estava em silêncio.
Pedia ao seu deus que protegesse Estevão.
O hospital, gelado e impessoal, estava superlotado, dando guarida aos vivos e despachando os mortos.
A portaria era o próprio caos, abrigando enfartos, facadas, estupros, asfixias, acidentes de todos os tipos e até alguns chiliques.
- Graças a Deus vocês vieram!
Júlia mal conseguia falar. Entre soluços, mostrou o seu desconsolo, a sua tristeza e o seu terror.
- Como ele está, Júlia?
- Vai ser operado logo mais. Ele quer falar com você, Jairo.
A UTI, muito limpa e muito branca, parecia uma ante-sala da morte.
- Como você está, amigão?
- Com medo, Jairo.
- Vai dar tudo certo. Acredite! Assim que você sair daqui, vamos comemorar. Certo?
Estevão tentou sorrir, mas, a boca se contraiu num esgar de dor.
Foi levado para a sala de cirurgia.
E Jairo ficou ali, naquele ambiente frio, sem saber o que fazer, esquecido pelos incansáveis enfermeiros e rodeado de vivos quase mortos.
Estava completamente abalado.
Sua vida seguira sempre uma rota linear, sem sustos ou decepções significativas.
Os passos mansos e previsíveis percorriam sempre as mesmas trilhas, confortáveis e seguras.
E em tão pouco tempo, a dor e o invisível estavam se manifestando de forma simultânea e direta.
Amava Estevão, seu irmão por afinidade.
E, neste momento, não podia fazer absolutamente nada por ele, a não ser algo que há muitos anos estava esquecido: rezar, rezar e rezar.
Chamou por um deus.
E tentou enxergar o deus da sua infância, velhinho e generoso.
Mas, vislumbrou apenas a alma de preto, encostada à parede muito branca, num contraste escandaloso.
Talvez, aquela fosse a hora exata para compreender os mistérios da morte.
Caminhou em direção ao homem de preto.
Olharam-se, e, no mais profundo silêncio, estabeleceram o elo necessário para o entendimento.
Com o chapéu apertado nas mãos, o espírito angustiado atravessou camas e gentes, pairando, enfim, sobre um leito acobertado por um biombo de lona.
Jairo olhou a confusão de tubos e fios e sangue e medicamentos, e recuou horrorizado.
Na cama, jazia inconsciente, o homem de preto.
- Enfermeira!
- O senhor não deveria estar aqui. Pode sair, por favor?
- Moça! O que aconteceu com este homem?
- Ele foi atropelado.
- Vai morrer?
- Ele está em coma profundo. Sem chances. Mas, é um caso estranho.
- Estranho em que sentido?
- Parece que ele se agarra à vida. Está praticamente morto, mas, não desiste.
Jairo olhou para o fantasma e ainda uma vez para o corpo estendido nas garras da morte.
Saiu da UTI e saiu do Hospital.
Encontrou a noite e seus ruídos.
- Muito bem! O que você quer?
- Quem me atropelou está de posse do meu bem maior.
- Do que você está falando?
- Estou falando do meu filho! A estória é longa e sórdida! Não tenho muito tempo. Vou lhe mostrar onde esconderam o menino. Você vai tirá-lo do cativeiro.
- Não posso fazer isto!
- Pode! Você é o único que consegue me ver. E se não pegar o meu filho, eles vão matá-lo.
- Vamos supor que eu consiga tirar o garoto do buraco...que eu consiga sair da confusão sem levar uns tiros...e depois?
- O depois fica por conta da sua consciência.
Jairo estava desnorteado.
O pânico agora tinha um motivo visível e palpável.
- Vamos! Não temos muito tempo!
O carro deslizou amedrontado pelas ruas da cidade, afastou-se do centro e ganhou a periferia.
A estrada de terra batida, forrada de buracos, logo apontou o tosco casebre.
- Chegamos!
- E agora?
- Dentro da casa tem apenas um homem. Os outros saíram. É o momento.
- Tudo bem. E daí?
- Pegue aquele pedaço de pau. Está vendo? Quando ele sair, você já sabe o que fazer.
- E quando ele vai sair? E eu sei o que fazer? Minha Nossa Senhora! Acho que preciso de um psiquiatra. A Ana está coberta de razão!
Suando frio, Jairo esperou.
E se nada acontecesse? E se os outros voltassem?
O homem de preto havia desaparecido.
Minutos que pareciam horas se passaram e nada acontecia.
- Onde está você? Apareça! Que inferno!
Uma pedra atingiu o telhado.
Muitas pedras atingiram o telhado.
Era uma chuva de pedras de todos os tamanhos, causando um barulho ensurdecedor.
O bandido abriu a porta, apavorado, sendo engolido pela madrugada.
Jairo deu-lhe uma paulada na cabeça e entrou na pequena casa.
Não foi difícil encontrar o garoto, todo acocorado num canto qualquer.
Com o menino no colo, Jairo correu em direção ao carro.
As mãos trêmulas deram a partida, e a velocidade agitou o ar, deixando um rastro de poeira na estrada deserta.
Aos poucos, as estrelas reapareceram, e uma fagulha de calma começou a suavizar o terror de Jairo.
- Sou amigo do seu pai.
- Onde ele está?
- Não vou mentir pra você. Ele está no hospital.
- Ele vai morrer?
- Não sei, garoto. Vamos até lá.
O menino estava calado. Parecia um homem velho.
- Que idade você tem?
- Dez.
- Como se chama?
- Pedro. Como meu pai.
Quando alcançaram o hospital, o dia estava nascendo.
O vai e vem das tragédias, no entanto, não parecia querer descansar.
Tudo continuava o mesmo caos.
- Onde você estava, Jairo? Meu Deus! Estava ficando desesperada!
- É uma longa estória, Ana.
- Quem é o garoto?
- Depois falamos sobre isso. Como está o Estevão?
- Parece que está reagindo bem à cirurgia.
- Graças a Deus!
De mãos dadas com o menino, seguiu pelo imenso corredor.
Ninguém tomou conhecimento. Ninguém tentou impedir.
Pareciam estar invisíveis.
Na UTI, o pequeno Pedro abraçou o corpo do pai.
Era, novamente, uma criança.
E chorou.
Jairo olhou para o homem de preto, que pairava sobre o leito.
E em seu olhar, viu uma profunda gratidão que acenava o adeus.
- Vamos pra casa, garoto!
Valéria Nogueira Eik
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