Idéias
Delírio
03/05/2006
Estaciono o carro na única vaga existente.
O calor é insuportável.
Neste momento sou apenas a motorista que precisa esperar pacientemente pela volta dos passageiros.
Avisto uma casa lotérica e fico observando o movimento dos sonhadores.
Tenho duas opções: relaxar ou me irritar com o calor e a espera.
Decido escolher o relaxamento, e com os olhos já à meia luz, dou asas ao devaneio.
Ganhei na mega-sena.
E sozinha!
Que egoísta!
Mas, o delírio é meu e eu faço dele o que quiser.
Em primeiro lugar, ajeitaria da forma mais lucrativa todo este dinheiro.
Isto seria uma medida provisória, claro!
Logo em seguida, compraria um ótimo apartamento, rodeado de varandas.
Um bom carro não seria nada mal.
Meus bolsos estão cheios de euros.
Sim! Euros! Os dólares andam muito esquisitos, ultimamente.
Mas, voltando às compras, eu me permitiria muitas futilidades que dão um colorido todo especial à vida.
Roupas e sapatos e bolsas e perfumes e montanhas de livros e planícies de cds e aquele biombo indiano que vive olhando pra mim e aquela estatueta cara que vai ser apenas mais uma e, que mais?
Jóias: nenhuma!
Viagens: todas!
Restaurantes: os melhores!
Daria aos meus familiares um polpudo presente.
Aos meus amigos, algum sonho muito desejado.
Aos meus auxiliares, pelo menos uma casa própria.
E, depois de sentir todas estas delícias que o dinheiro pode proporcionar, trataria de organizar o capital de forma conveniente e produtiva.
E, em seguida, correr o mundo!
Estar no Brasil agora, semana que vem, na Índia.
Europa, Ásia, África, Oceania, Américas.
Sempre com a minha câmera no pescoço, como se fosse uma turista acidental.
Acidental?
Sim! Afinal, ganhar na mega-sena é um acidente glorioso!
Acumularia rostos, amigos, paisagens e vivência.
E a cada retorno, estórias aos montes para contar e relembrar.
Vejo uma loja logo ali na frente.
Muito satisfeita, me preparo para entrar e comprar tudo o que os meus olhos desejarem.
Bato a mão no bolso.
Vazio!
Mas, não é possível!
Estava abarrotado de euros!
Que pena.
Foi apenas uma miragem, causada, talvez, pelo excesso de calor.
Mas, o mais provável é que tenha sido um delírio, provocado pela abstinência forçada de grana.
Valéria Nogueira Eik
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