Idéias
Dieta
07/04/2006
Tem fases na vida em que o dinheiro fica curto.
Tão curto que só de pensar nele, acabou.
E eu estava justamente neste redemoinho de escassez, quando entrei na cozinha e escutei um barulhinho no freezer.
Ignorei de forma inteligente o tal ruído e fui dormir.
No dia seguinte, o barulho estava mais vibrante.
Parecia que o freezer queria conversar, mas, eu não estava disposta a ouvir.
Deixei o pobre aparelho curtindo a sua solidão e me fiz de surda.
Audição esperta é assim mesmo: totalmente seletiva.
No terceiro dia, não deu mais para ignorar o ruído, que mais parecia uma lamentação causada por uma dor de barriga sem começo nem fim.
Penalizada e preocupada, sentei no banquinho em frente ao freezer e perguntei:
- O que você tem, afinal?
Ele me olhava meio envergonhado e nada respondia.
- Cara, você está me chamando para uma conversa faz três dias e quando resolvo escutar, fica calado?
Perdi a paciência e fui dar uma examinada nele.
Ele gemia, gemia e gemia.
Estava gelado e parecia que suava.
Coitado.
Pode ser que esteja muito encostado na parede, pensei.
Dei uma puxadinha pra lá, outra pra cá.
Não adiantou.
O aparelho continuava a gemer.
- Ai, meu Deus! Deve ser grave!
Senti que meu bolso vazio estava ficando ligeiramente agitado e nesse estado gritou:
- Como vou bancar as despesas hospitalares do freezer?
Mas, em tempos difíceis, a criatividade e a inteligência se manifestam de forma acentuada e resolvi ir pelo caminho mais curto da estória.
Sem fazer maiores dramas, abri a porta do aparelho e descobri o motivo de tanta algazarra.
O freezer estava faminto.
Sem nada na barriga, as gavetas vibravam, provocando o barulho.
O bolso e eu começamos a rir, e muito aliviados, tiramos todas aquelas peças obsoletas do freezer e tudo se resolveu.
Bem, quase tudo.
Mas, estamos fazendo regime mesmo, o freezer e eu.
Valéria Nogueira Eik
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