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Idéias

Esperando o chamado
16/08/2005

O portão abriu-se para as lembranças de um tempo que estava muito distante.

O vento frio arrepiava a alma, e o medo de não encontrar o passado se juntou ao ar gelado, num inverno rigoroso e levemente abstrato.

O lugar ainda é o mesmo; o jardim está bem cuidado e algumas árvores cresceram, tornando-se jovens senhoras.

Tudo parece paz e a estradinha de pedras entoa uma música singela sob os pneus do carro; a mesma canção de alguns anos atrás.

Estaciono o carro no mesmo lugar, sem nenhuma pressa, porque não tenho pressa em saber se o que vim buscar ainda se encontra ali.

Meus olhos procuram ansiosos por alguns indícios de vida ou de morte, e trôpegos, vasculham pelas varandas, algum velho rosto conhecido.

Reconhecendo três pessoas ao mesmo tempo, meus pés seguiram firmes na direção do tempo, aliviados e alegres.

Um grande abraço, sorrisos, reconhecimentos, conversas cheias de alguma cerimônia, que talvez signifiquem uma timidez nascida da distância ou a mágoa gerada pelo meu abandono.

Em pouco tempo estamos rindo, totalmente desarmados, e contando um pouco do muito que aconteceu em tão largo espaço.

Algumas pernas e alguns braços se foram, mas, o inverno e as roupas de lã cobrem essas dores.

E Valdomiro, esquecendo-se que eu já conhecia o seu drama, me falou:

- Fui ao hospital por duas vezes.

- Não tenho uma perna e um braço e precisei cuidar muito do que me sobrou.

- Tomei muitas injeções doloridas e logo que pude, saí correndo de lá.

O outro companheiro, que não mais possui as duas pernas, rindo bastante, disse:

- Correndo como? Se você nem anda!

Apesar de tudo, ainda resta senso de humor, um tanto macabro, mas, não deixa de ser humor, e todos nós rimos muito, porque na vida, aprendemos que rir de nós mesmos é produtivo.

Aproveitei o momento de descontração e fiz a minha “tiradinha”.

- E aí, José? Fiquei sabendo que o seu time vai de mal a pior!

- A senhora não está bem informada. Ele está em segundo lugar e hoje vai jogar e ganhar o título.

- Essa eu quero ver, José, porque o seu time só perde!

Novas risadas e a certeza de que o time vai ganhar, e de quebra, ele me passou a informação quentíssima de que Deus é corintiano, e eu concordei prontamente, partindo da premissa que Deus é onipotente.

Funcionários transitam pelos corredores sem parar.

A limpeza precisa ser feita, os remédios precisam ser ministrados e o lanche da tarde finalmente é servido.

Deixo os meus amigos fazendo a refeição e vou caminhar pelo local, tentando encontrar mais rostos familiares.

Estou indo à procura da minha amiguinha predileta, Maria, uma senhorinha que há muito passou da meia idade.

Espiei discretamente o refeitório e, satisfeita, vi que ela estava sentadinha, terminando o lanche.

Esperei pacientemente que ela viesse até a porta e somente neste momento é que me mostrei para ela.

Ela olhou e ficou vasculhando o cérebro, na tentativa de identificar de quem seriam todos aqueles dentes sorrindo em sua direção.

Em milésimos de segundos, ela sorriu e falou:

- A senhora veio!

- A senhora não esqueceu de mim!

Ela me abraçou muito forte, numa carência muito grande, e a partir daquele momento, agarrou a minha mão e foi me arrastando para algum lugar onde pudéssemos colocar os poucos assuntos em dia.

Ali não existe privacidade e todos compartilham quase tudo com quase todos, e por isso, a nossa conversa particular era ouvida por quem ainda possuía a capacidade de ouvir e partilhada por aqueles que ainda podiam entender.

- Eu estou namorando, Maria me disse.

Falou essa frase como se fosse uma adolescente feliz e apaixonada.

É maravilhoso ver que o tempo não destrói a capacidade que o ser humano tem de se apaixonar e viver esse sentimento, mesmo que nem sempre possa ser da forma ideal, mas, de alguma maneira acaba sendo total, porque é amor, é carinho, é sexo, é vida.

Deixei que ela falasse muitas coisas.

Perguntei outras tantas, sobre os familiares, sobre o namorado, sobre quem tinha morrido ou ido embora.

E fiquei observando os outros velhos ao redor e suas expressões ou a falta delas, seus desgostos, suas doenças, mas, principalmente o abandono que seus familiares impõem a cada um deles, por indiferença ou mesmo por impossibilidades.

Algumas bocas sorriam sem saber porque sorriam.

Alguns olhos olhavam sem saber para onde olhavam.

Mas, estavam todos ali, na mesma varanda, respirando e vivendo, e esperando o chamado de Deus ou do Diabo.

O rádio estava tocando música num volume mais alto do que seria agradável.

Mas, parece que ninguém se importava com o barulho; ou não se incomodavam ou não ouviam ou não se atreviam a contestar, já que o dono do rádio, um outro sem-perna do lugar, não estava com cara de muitos amigos.

Ele estava deitado no sofá, olhos voltados para o nada, e seguindo a rota do seu olhar, pude perceber que ele estava sonhando acordado com alguma lembrança feminina e colorida do passado.

A música embalava as suas ilusões, e ao mesmo tempo criava uma barreira impedindo que os outros velhos penetrassem em seu mundo absolutamente particular.

Quase ao lado da minha amiguinha Maria, um homem estava comendo uma papa de bolachas com leite e usava uma colher.

Suas mãos rebeldes não estavam dispostas a obedecer suas ordens, e o leite com bolachas caía no babeiro que lhe colocaram por cima da roupa.

O tempo fez-lhe um tremendo estrago e demorei para reconhecer nele o mesmo homem que agia por conta própria há poucos anos atrás.

Caneca vazia e babeiro cheio, sinal do término da refeição; tiraram a caneca de suas mãos e um pano grosso, que fazia às vezes de guardanapo, foi passado em sua boca, causando-lhe um susto.

Triste. Tudo muito triste. Mas, da mesma forma que entramos no mundo, saímos dele: sem defesas e sem controle.

É um verdadeiro desfile de semi-homens, que já foram homens ou até mesmo super-homens; e agora, ficam sujeitos à erosão do próprio corpo e à falta de jeito dos mais jovens, que não se apercebem que logo ali na próxima esquina da vida, também estarão aos pedaços.

Sim! Aos pedaços em corpo e alma, porque um ser humano que é jogado fora como coisa acabada antes de terminar, só pode estar pelas metades; e nada é mais doloroso, pungente e revoltante do que não ser o que um dia já foi.

 

 

Valéria Nogueira Eik

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