Idéias
Fábula ou estória?
20/10/2005
Esta não é uma estória.
É uma fábula, porque toda fábula vomita em seu final a moral da estória, se é que ela tem alguma.
Podemos concluir, então, que uma fábula não tem moral.
Ela é imoral ou amoral?
Talvez, as duas coisas ou nenhuma delas.
Mas, sempre me disseram que uma fábula para ser fábula precisa ter moral.
Então, esta é uma fábula que contém uma estória que contém uma moral.
Pois muito bem.
Um homem muito relapso, relaxado, descuidado e mais algum outro sinônimo que não me lembro neste momento, voltou para casa, depois de um dia exaustivo de trabalho.
Tomou um banho gostoso, colocou seu pijama sexy de algodão e esparramou-se na poltrona, em frente à televisão, para mais uma sessão de terror dos noticiários, seu programa favorito.
Deliciava-se com os assaltos, as guerras, as mortes, a queda nas bolsas de valores, enfim, com as quedas de todos os tipos.
Era um pessimista por natureza e um maluco por falta de horizontes.
Ele e seu pijama tinham acabado de jantar.
Estavam relaxados e felizes, assistindo uma porcaria qualquer na televisão, quando perceberam que o cigarro havia acabado.
O homem maluco viu que a única opção era mesmo sair novamente à rua, para adquirir o tal cigarro.
Convidou o pijama para ir junto, afinal, o bar era logo ali na esquina.
Iriam num pé e voltariam no outro, ou melhor, iriam numa roda e voltariam na outra, e assim, não perderiam quase nada da programação, que naquela noite prometia ter um alto teor de mediocridade.
E ninguém perceberia o pijama, já que a noite estava muito escura.
Foram de carro, cheios de pressa, mas, antes de alcançar o boteco, um dos pneus furou.
O homem tentou negociar com o pijama, para que ele trocasse o pneu, mas, ele apenas resmungou:
- Ou vamos juntos, ou nada feito.
Desceram do carro, abriram o porta-malas e verificaram que o estepe estava furado.
O homem ficou desesperado e o pijama, muito arrependido por ter concordado com o passeio.
- Céus, céus! O que mais falta acontecer? Gritou o maluco.
Nesse instante, a resposta veio diretamente dos céus em forma de um vigoroso trovão e a chuva caiu sem dó nem piedade sobre os dois camaradas.
Para um simples mortal, aquelas desgraças seriam mais que suficientes, mas, para o pessimista ainda era muito pouco.
Num rasgo de sorte, passou por ali uma alma perdida que concordou em dar uma carona ao homem de pijama até o posto mais próximo.
Pneu arrumado, que beleza!
O dono do posto, achando graça da situação, levou o pijama e o estepe de volta ao carro e até concordou em levar o homem junto.
O pijama já havia assumido a liderança do episódio e na troca do pneu, sujou-se todo de graxa, e a graxa juntou-se ao molho de tomate que estava grudado no pijama desde o jantar.
Pneu trocado, que maravilha!
Eles retornaram ao posto, consertaram o estepe e finalmente, compraram os causadores de toda essa confusão, os cigarros.
Voltaram para casa abatidos e encharcados e o pijama estava louco por um banho, mas, o maluco não parava de espirrar e se jogou pesadamente sobre a poltrona, curtindo a gripe adquirida na caça ao tabaco.
A febre veio dar uma espiada e resolveu ficar.
O pijama aconselhou ao homem que fosse até um pronto socorro, porque a gripe estava ficando muito valente.
Lá chegando, ele foi internado com urgência, pois tendo ficado muito tempo em contato com os pneus, acabou adquirindo uma pneumonia.
A doença se sentiu totalmente em casa, visto que aquele corpo era um terreno propício para toda sorte de azares.
Achando a residência muito confortável, ela chamou sua irmã para morar junto, formando assim, uma dupla de pneumonias.
E a infecção hospitalar, albergada por longo tempo no hospital e estando ansiosa por um lar, resolveu brigar por um pedaço de terra naquele latifúndio de pessimismo.
Em poucos minutos assumiu o comando, sentou-se em seu trono e ficou tão inebriada com as facilidades da nova posição, que se lambuzou de mel, pisou na bola e destruiu a casa.
O homem de pijama morreu, mas, o pijama sobreviveu.
Estava inconformado, pois seu camarada era maluco e sempre via, fazia e esperava o pior de tudo, mas, era seu camarada, e juntos tinham passado ótimas horas em frente à televisão, assistindo todas as porcarias que acontecem na aldeia mundial.
Juntos tinham almoçado e jantado todas as gorobas que são compradas prontas nos supermercados.
E juntos, tinham fumado incontáveis maços daqueles cigarros intragáveis que o homem maluco adorava.
Em pouco tempo, pessoas vestidas de branco entraram no quarto, e não eram os anjos do Senhor.
Agarraram o homem e seu pijama e vestiram neles um sobretudo de madeira.
O pijama esperneava e gritava que estava vivo, mas, ninguém dá ouvidos a um pijama manchado de graxa e molho de tomates, mesmo sendo sexy.
Mas, deixando de lado o sentimentalismo, vamos aos negócios.
Por ter sido tão relapso, além de pessimista e maluco, o homem do pijama não se preveniu e não providenciou em vida a sua morada eterna e nem a do pijama.
Caiu em mãos inescrupulosas, que lhe tomaram a casa; mas, em troca, porque quase sempre existe a troca, deram-lhe um enterro “meia boca” e um terreninho sem vista para a cidade, no Bosque do Silêncio.
Mas, era aconchegante.
Creio que esse bosque jamais será o mesmo depois que o homem e seu pijama botarem os pés por lá.
Os camaradas vão azucrinar a vizinhança, querendo saber quem tem televisão e cigarros.
Enfim, vamos à moral da estória.
Melhor dizendo: vamos ao final da fábula, que tem uma estória, que tem uma moral.
Moral: não existem níveis seguros para o consumo de TV, pois este produto contém mais de 1.000.000 de substâncias tóxicas, que causam dependência física e psíquica, que associadas ao esquecimento da compra de cigarros na hora certa, podem matar.
Valéria Nogueira Eik
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