Idéias
Idéias
08/09/2005
- Você está atrasado, como sempre!
- Tenha calma, mulher. Ainda temos tempo.
- Que tempo, que nada. Você é que não toma jeito.
- Mulher, mulher. Vai acabar indo a pé pro trabalho!
- Pois experimenta sair sem mim pra ver o que acontece.
E todas as manhãs eram iguais.
A mulherzinha era terrível.
O marido era uma criatura mansa.
E lá iam os dois para o trabalho, numa motocicleta velha, ele sorrindo para o dia e ela rangendo os dentes nos ouvidos dele.
- Isso é que é dia, hem, mulher?
- Dia pra que?
- Pra ser feliz, ué!
- Você não toma jeito mesmo, Josias.
- Onde já se viu pensar em dia bonito? Presta atenção no trânsito, isso sim.
Josias fingia não ouvir aquela voz metálica e rude da esposa e se calava, fechando-se em seus pensamentos inocentes.
Ela ia fungando e suspirando dentro do capacete apertado, esperando apenas que o marido fizesse mais algum comentário feliz.
- Chegamos, mulher.
- Sorte sua que não me atrasei.
- Tenha um bom dia, querida.
Ela saiu andando em direção aos portões da fábrica e nem beijo e nem bom dia ele recebeu.
Josias estava casado há cinco anos e a decepção estava começando a gerar os primeiros frutos amargos em sua mente, trazendo pensamentos esquisitos que ele ainda não compreendia muito bem.
E quando isso acontecia, de noite ele corria à igreja e conversava baixinho com Deus, pedindo uma explicação para as idéias tão ordinárias que povoavam a sua alma, antes tão doce e tão calma.
Sentia vontade de matar a mulher, mas, queria que fosse um crime perfeito e além de perfeito, cruel.
E passava horas e horas nesse devaneio, perdido numa dualidade espantosa, onde a bondade brigava com a fúria e a fúria, a cada dia, se tornava mais forte.
Vários dias se passaram.
Vários dias iguais.
Os pensamentos foram ganhando contornos e formas, e a voz de Deus foi ficando distante, apenas sussurros, até que não pôde mais ser ouvida.
A ira atingiu seu ponto máximo e Josias passou a enxergar o mundo em tons de sangue.
Via sangue nas ruas, no trabalho, na marmita, na cerveja, na cama, na própria roupa e nos pesadelos.
Mas, mostrava-se dócil, sereno e amoroso, como sempre; e os amigos e vizinhos sentiam pena desse moço tão bom, mas, tão bobo, que fazia todas as vontades da esposa, e nem de longe imaginavam que aquela alma estava dando guarida a um perigoso e louco assassino.
Entre dentes, ele rosnava e sussurrava para si mesmo: Ela vai morrer, ah, se vai!
O plano era muito simples.
Como em todas as manhãs, eles estariam juntos na motocicleta, ela gritando insultos em seus ouvidos, ele estaria muito tranqüilo e no momento oportuno, jogaria a mulher no meio dos carros, fazendo parecer um acidente.
Dormiu feliz.
Acordou feliz.
Foram para o trabalho, juntos como sempre, ela berrando palavras azedas em seus ouvidos, ele apreciando o sol, que nesse dia estava mais brilhante, dando a sutil idéia de ser um cúmplice de Josias.
Sol e Josias estavam felizes.
A motocicleta seguia pelas ruas numa velocidade normal.
Sol, Josias e motocicleta estavam felizes.
O sangue borbulhava no coração de Josias.
Sol, Josias, motocicleta e coração estavam felizes.
Um estampido seco.
Tumulto, corre-corre, trânsito parado, polícia e a mulher estendida no chão, atingida por uma bala perdida, que encontrou seu alvo antes de Josias.
O sangue jorrando da jugular.
O Sol escondendo-se entre as nuvens.
A motocicleta encostando-se, cabisbaixa, no meio fio.
E Josias chorando em desespero, esmurrou o ar e soltou seu urro de dor:
- Traidor! Quem foi o traidor?
Valéria Nogueira Eik
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