Idéias
Lendas
08/09/2005

Como seria bom se pudéssemos ser eternas crianças, cultivando sonhos inocentes, sem conhecer a maldade que espera, paciente, o momento de se mostrar.
Como seria bom se nunca descobríssemos que nossos pais são humanos, ao invés de anjos e sábios.
Como seria bom se todas as horas do dia fossem apenas longas brincadeiras entre o sol, a chuva e as criaturas.
Como seria bom se todos os momentos da noite fossem feitos somente de estrelas e descanso.
Mas, as pequenas pessoas crescem e os anjos se afastam, Papai Noel tem problemas na fábrica de brinquedos, Coelhinho da Páscoa, ao invés de dar chocolates, passa a cobrar muito caro por eles, e João Pestana se sente impotente diante de tamanha turbulência e abandona a missão de rolar barris de sono.
E os mestres continuam desfilando à nossa frente e às nossas costas.
E assim, vamos crescendo ou não.
Agora somos adultos.
Nossos filhos já descobriram que não somos super heróis.
Não acreditam em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, e talvez, nem em si mesmos.
Estão rodeados de mestres e seguem caminhos; caminhos tão parecidos com os nossos que eles se surpreenderiam com as semelhanças.
Agora somos maduros.
As lembranças que ficaram escondidas em alguma gaveta da alma, reaparecem nesse momento da vida, e passam a povoar novamente o nosso mundo, com sonhos que muitas vezes superam a realidade.
Estamos em busca do Bom Velhinho, nos afastamos dos chocolates e clamamos por João Pestana.
Mas, depois de tanto viver, resta ainda o desejo de ter mais vida.
Depois de tanto desamor, resta ainda e mais que nunca a vontade de ter amor.
E após tantos desacertos, resta a serenidade, que mais uma vez nos procura, querendo se estabelecer e ficar.
E, ao encontrar a calma, compreendemos que nossos pais eram anjos sem asas, mas, eram anjos.
Que Papai Noel continua morando no Pólo Norte e em nossos corações, através do que aprendemos e fazemos para dar encanto à vida de outras pessoas.
Que o Coelhinho da Páscoa, nem sempre podendo ser tão generoso quanto gostaria, ainda assim traz chocolate e magia para alguns, deixando pegadas de encantamento pelas estradas da vida.
E que João Pestana, aquele gnomo gentil e bonachão, afastado pela nossa sede de crescer, volta saltitante e feliz, trazendo como recompensa pela nossa maturidade, um sono tranqüilo e doces lembranças do passado.
Porque de ora em diante e diante da serenidade, eles estarão sempre presentes, e junto com eles, a certeza de que somos apenas o que somos, e a vida é o que é, nada mais que isso.
E perante a aceitação de que somos apenas anjos sem asas, muito parecidos com os nossos pais, finalmente compreendemos e acolhemos a vida, que agora se mostra serena e alegre, assim como as lendas da nossa infância e os sonhos sazonados que povoam a nossa maturidade.
Valéria Nogueira Eik
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