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Idéias

Mais uma do cotidiano
15/09/2005

Meu despertador acordou animado e sempre pontual.

Além de pontual, ele ainda é paciente, porque espera ao meu lado por mais dez minutos e novamente me chama, cheio de alegria e vigor.

Quero alcançá-lo para poder fazer um arremesso certeiro contra a parede, mas, sempre me lembro a tempo que ele também é o meu celular e custa dinheiro.

Tenho certeza de que ele se diverte ante a minha impossibilidade em destruí-lo.

Sei que a nossa relação precisa de alguns ajustes para se transformar em uma boa amizade, mas, vamos levando esse relacionamento como é possível.

Está muito frio, está chovendo, e para completar o quadro de total preguiça, eu perdi algumas horas de sono reparador, ontem à noite, jogando gamão na internet.

Mas, mesmo tonta de sono, obedeço ao horário e pulo da cama, num arremedo de entusiasmo.

- Bom dia, sol! Bom dia, vida!

Sempre me dizem que isso funciona como antidepressivo.

Depois de meia hora, estou dentro do carro, tentando um novo arremedo de ânimo, visto que a primeira tentativa parece ter falhado completamente.

- Bom dia, portão eletrônico filho de uma ...

Uma o que?

- Abre-te Sézamo ou algo que o valha!

E lá vou eu atrás do que está atrás de mim e não me dá trégua.

De repente, nem percebo que estou ótima e tudo vai correndo muito bem.

Aliás, tudo corre tanto que levanta vôo e eu até já almocei.

Que lombeira!

Vixe! Agora não estou com depressão. Estou triste de verdade e nem sei o motivo.

Pensei sobre isso uns dois segundos e deduzi que a tristeza era decorrente da falta de açúcar no estômago.

- Preciso comer um docinho.

- Não! Preciso comer um “doção”.

Fui até o supermercado, comprei o que não precisava, e por fim, estacionei os olhos gordos na vitrine da panificadora.

- Por favor, quero dez pães.

- Você pode esperar três minutos? O pão está saindo do forno.

Sou contra qualquer tipo de espera, mas, hoje é um dia especial.

Especial por que?

Deve ser porque estou triste.

E eu fico namorando uma superbomba recheada de brigadeiro, coberta com uma grossa camada de chocolate e por cima de toda essa loucura, ainda tem uma enorme gota de marshmallow.

Três minutos se passaram, o pão saiu do forno soltando fumaça e a moça me perguntou:

- Dez Pães?

- Não! Agora eu quero quinze pães.

- E, por favor, vou levar essa bomba de brigadeiro.

As pessoas que estavam na fila ficaram me olhando como se eu fosse uma retirante esfomeada.

Que bobagem e que redundância!

Esfomeado, no meu dicionário íntimo e particular, é um sinônimo de retirante, ou vice-versa, visto que retirante já é esfomeado por natureza.

Natureza de quem?

Deixa pra lá que é mais sensato.

Pois então, olharam para mim com cara de espanto, como se eu estivesse com a calça furada sabe-se muito bem onde e eu sorri orgulhosa, levando dois sacos de pão num braço, mais o doce na outra mão, a gulodice nos olhos e a tristeza...pra onde ela foi?

Acho que fugiu correndo quando viu a bomba.

Afinal, diante de uma concorrente tão poderosa e tão imbatível, a tristeza não teria a menor chance de vitória e deu por encerrada a função de me atormentar, passando o cargo para a bomba, que com toda a certeza, faria um excelente trabalho em poucos minutos.

Entrei no carro e mordi o doce, que explodiu e começou a derramar chocolate pelo meu queixo e alcançou até a pontinha do meu nariz.

Que feio!

Não dava para esperar até chegar em casa?

Não, não dava.

Precisava tratar a tristeza senão eu seria capaz de chorar, e muito.

Que falsidade!

A tristeza fugiu, esqueceu?

Claro que não esqueci da fuga daquela tristeza danada, mas, precisava de uma justificativa para comer um doce tão grande.

E fui comendo, mastigando, devorando, me lambuzando e sentindo um certo alívio, que durou muito pouco.

Ao final da orgia “bombástica”, eu me perguntei:

- Por que eu não me sinto melhor?

Acho que vou cantar como as crianças do filme “A noviça rebelde”, porque elas sempre se sentiam mais animadas quando cantavam.

Pensando bem, vou cantar no banheiro que é mais seguro.

- Abre logo, portão neto, bisneto e tataraneto de uma...

Uma o que?

Ah! Deixa pra lá.

Nem sei porque eu estava triste.

Mas, agora eu estou com uma baita indigestão e eu sei porquê.

Conclusão: para curar um mal, nada melhor que adquirir um novo mal.

E funciona!


Valéria Nogueira Eik

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