Idéias
Com vocês, Mário Quintana!
30/05/2005
Esta coluna chama-se LITERATURA, e meu objetivo é despertar, mesmo que seja em apenas um leitor, a busca por novos mestres, esses maravilhosos pensadores, que vivem e sobrevivem num tempo sem tempo, mas, sempre atuais.
É muito bom compartilhar com vocês o prazer de ler e, também, o entusiasmo por encontros ou reencontros com os artistas que fazem do pensamento, uma obra de arte.
De mestre em mestre, vamos assimilando novas idéias e adquirindo sabedoria.
De idéia em idéia, vamos construindo ideais.
Com vocês, MÁRIO QUINTANA!
Mário Quintana nasceu em 30 de julho de 1906, natural de Alegrete, Rio Grande do Sul, e morreu em 05 de maio de 1994.
“É o poeta das coisas simples”.
Em cada frase ou poema, captava os sentimentos e fatos mais comuns do ser humano e transformava-os em verdades absolutas, finalmente vistas e assimiladas por todos (ou quase todos).
Foi um grande pensador, e a sua lucidez, muitas vezes, foi interpretada como irreverência.
Para quem procura clareza de pensamentos e beleza, nada melhor do que conhecer ou “reconhecer” este grande poeta.
A idade de ser feliz
Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa. Os poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti... Se eu fosse um padre
Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!
Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!
Evolução
O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.
O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.
O Poema
O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.
Sinônimos
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.
Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
A Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
Das utopias
Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não quere-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!
Valéria Nogueira Eik
Voltar
|