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Idéias

Monólogo ou diálogo?
03/05/2006

A chuva caiu num pranto convulsivo, alagando a estrada solitária.

Lúcio apertava os olhos na tentativa de enxergar alguma claridade dentro da noite apagada.

Dirigia com cautela e seus músculos estavam tensos e suas mãos apertavam o volante, como se isto pudesse salva-lo da escuridão.

As almas vivas estavam distantes daquele pesadelo, cedendo lugar para as almas muito mortas, que se levantavam dos túmulos para povoar a imaginação do pobre homem.

Temendo a morte, os mortos e os vivos, assim seguia Lúcio pela estrada, relembrando desesperadamente um Deus esquecido nas pregas da sua infância.

-         Pai Nosso que estais no céu! Onipresente! Santificado seja o Vosso Nome! Oh, Deus! Preciso chegar em casa. Socorro! Venha a nós o Vosso Reino e seja feita a Vossa Vontade! Oh, meu Deus! A Vossa Vontade, não! Por favor! Faça acontecer a minha vontade! Assim na terra como no céu. Aqui na Terra, Deus! Prefiro continuar por aqui! O pão nosso de cada dia, dai-nos hoje. Muito pão, meu Deus! Muito pão! Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido! Cristo! Não perdoei nem o meu filho, que quebrou a vidraça do vizinho, e nem o vizinho por brigar com o meu filho. Preciso reformular algumas coisas nesta estória de perdão. Eu prometo, Deus, ser mais generoso. E não nos deixeis cair em tentação! Tentação? E esta agora? Que tal pularmos esta parte da oração, Senhor? Não posso esquecer aquela morena apetitosa do Balaio das Gatas. Livrai-nos do ...

Dividido entre a prece e a estrada, Lúcio não enxergou um veículo parado no acostamento, e talvez, por graça daquele Deus surdo-mudo, mas, generoso, ele conseguiu frear e parar seu carro antes da colisão.

Os faróis iluminaram timidamente o interior do veículo e lá estava um homem, sangrando mais que a própria chuva daquela noite e ainda gemendo e exalando os últimos suspiros.

Um resquício de bondade superou o medo do sangue e de um possível assalto, e Lúcio tentou socorrer o moribundo.

Mas, ele apenas balbuciava frases que não faziam sentido algum.

-         Pegue a maleta... é sua, agora... vá embora...

-         Mas, o senhor precisa de ajuda! Vou leva-lo ao hospital!

-         Pegue a maleta...

Lúcio escutou o baque surdo da morte.

Olhando para o rosto sem alma, sentiu que o relógio do tempo perdera os ponteiros, e neste instante a chuva parou, o sangue estancou, e o medo voou para longe, restando apenas a impotência diante da morte e a solidão de um vivo perdido na noite.

Olhou para a maleta.

Ignorava os motivos da morte estúpida, mas, compreendia, finalmente, o significado das últimas palavras do homem.

Estava constrangido.

Sentia-se como um saqueador.

Mas, a maleta era sua, agora.

Abriu a pasta e inúmeros maços de dinheiro iluminaram a noite.

Olhou mais uma vez o cadáver ensangüentado e agradeceu o presente.

O seu Deus, afinal, não era surdo nem mudo.

Dera-lhe a oportunidade de ser generoso.

Dera-lhe muito pão.

Fizera-lhe as vontades.

E diante de tanta bondade divina, Lúcio sabia que estaria perdoado infinitamente por suas tentações morenas e loiras e ruivas.

Entrou no carro e acelerou, atropelando a estiagem e os insetos da noite.

 

Valéria Nogueira Eik

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