Idéias
Reta ou sinuosa, é fila
12/07/2006
Estou na fila dos carros.
Faz quinze minutos que aguardo, no meio da rua, a minha vez de entrar no estacionamento.
Agora sobrou uma vaga.
Lá vamos nós: o carro e eu!
Finalmente, entro no banco.
Deixo meus pertences metálicos ao lado da porta, mas, isto não impede que eu fique presa dentro daquela coisa que gira, gira, gira...
O segurança quer saber o que mais eu tenho dentro da bolsa.
- Minha bazuca de estimação!
Ele ri.
Ainda bem que estamos no Brasil.
Peguei a senha.
Não está calor, mas, o ar condicionado deixa o ambiente mais gostoso.
Que sono!
- Moça! Moça! Que número é a sua senha?
- 244.
- A minha é 232. Não vou mais usar. Pega pra você.
Parece que estou com sorte!
Eu nem sabia que tinha troca-troca de senha.
Fila de banco é algo, no mínimo, surpreendente.
Passei a 244 para um senhor que estava entrando com a 250.
E fiquei naquela modorra pós-almoço.
O ar estava geladinho e o silêncio só era quebrado pela campainha suave que anunciava o próximo número.
Fui sumindo, sumindo...
- Papai! Papai! Olha o avião que eu fiz! Papai! Papai! Quero fazer arte. Olha o avião que eu fiz!
- Hum...
- Papai! Quero ir no banheiro!
- Agora não, filho! Está quase chegando a minha vez. Fica quietinho, pelo amor de Deus!
- Quero ir no banheiro! Quero ir no banheiro!
O homem olhou para mim e para todos com um jeito desesperado.
Levou o moleque para o sanitário.
No painel, o número 228 piscava num tom vermelho e exuberante.
Pai e filho voltaram em tempo, e, por motivos diferentes, estavam aliviados.
229
230
231
Chego quase a ficar emocionada. A próxima sou eu! Sou eu!
Mas, alegria de fila de banco dura pouco.
Dois velhinhos sorridentes me atropelaram e surrupiaram a minha vez.
Concordo que é justo. Muito justo!
Mas, que azar o meu!
232
É a minha vez, finalmente!
Dou um passo maior que a perna para não correr o risco de ser interceptada por alguma gestante.
Alcanço o caixa e estou cara a cara com a moça que vai me atender.
- Um momento, por favor. O sistema está fora do ar.
Não acredito!
- Fora do ar?
Que FDP este sistema!
Deve ter comido muita grana. Indigestão! Só pode ser.
Depois de dez minutos, antiácidos e arrotos fenomenais, eis que surge o sistema, pronto para me atender.
Missão comprida, mas, cumprida.
233
23...
Ganho a rua, o calor e o cheiro de morangos frescos.
Olho para trás e vejo a porta girando, no seu monótono rodopio, engolindo números e cuspindo gente
Valéria Nogueira Eik
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