Idéias
Sorvetes de carrinho e afins
15/11/2005
Estava passando de carro por uma rua qualquer e vi um carrinho de sorvetes.
Parei e desci.
Queria porque queria um sorvete daqueles.
Sempre me disseram que são feitos com água da torneira, e na minha opinião nada confiável, isso os torna ainda mais saborosos.
Uns micróbios a mais fortalecem o organismo humano.
Eu avisei que a minha opinião não era confiável!
- Tem do quê?
- Ah! Agora não tem quase nada. Mas, ainda tem de groselha, limão e coco queimado.
Peguei um de coco queimado, e confesso: estava uma delícia!
Enquanto tomava o sorvete, fiquei vigiando o restante deles para que não caíssem em mãos, ou melhor, em bocas erradas.
Queria mais e peguei um de groselha.
Parece que o de groselha tem uma quantidade menor de micróbios, mas, mesmo assim, estava ótimo.
E se o outro sabor é limão, que venha o sorvete de limão, porque hoje é o dia em que eu estou com vontade de tomar sorvetes de carrinho.
Quando eu era “criança pequena”, não em Barbacena, mas, em Ibiporã, esses picolés eram A Glória.
E o meu predileto era de hortelã.
Era muito mais verde que um tambor inteiro de hortelã concentrada. Só tinta, água da torneira e micróbios deliciosos.
A gente chupava até ele ficar branco, feito sorvete de limão.
Tinha também os sorvetes italianos.
Os vidros ficavam de boca pra baixo, muito coloridos, cada um de uma cor.
Vermelho, diziam que era de morango.
Uva era de uva mesmo. Talvez um tipo inexistente da fruta, mas, era muito bom.
Cor de rosa, falavam que era de framboesa.
O amarelo só podia ser de abacaxi.
E tinha o azul, que eram pedacinhos do céu, quando ele ainda não era poluído.
Era um processo meio desavergonhado, porque o líquido ia saindo devagarinho, numa consistência duvidosa, e enchia a casquinha, que ficava esperando na saída do cano.
Esquisitos ou não, eram maravilhosos.
Os dinossauros também adoravam tomar sorvete.
O tempo passou e me tornei uma adolescente.
Foi nessa época que tomei a minha primeira banana split.
Eu seria capaz de tomar duas, se não fossem os olhares indiscretos e altamente críticos dos outros adolescentes, tão insuportáveis como eu.
Aquilo não existia e estou falando da banana split e não dos adolescentes.
Estes são como as baratas: indestrutíveis!
Neste tempo não mais existiam dinossauros.
Aliás, acho que finalmente posso contar porque eles sumiram do planeta: eram verdes como os sorvetes de hortelã.
Um dia, andando lá pelo centro da cidade, na era atual, eu avistei uma máquina de sorvete italiano.
Meu coração quase parou de tanta emoção.
Ele quase parou, mas, eu não permiti que o quase me atrapalhasse e parei de verdade.
Fiquei olhando aqueles vidros, aquelas cores, e o meu olhar apaixonado deve ter assustado o dono da máquina, porque quando falei boa tarde, ele apenas grunhiu alguma coisa.
A saudade me fez tomar dois sorvetes, um depois do outro.
E a vergonha me fez ir embora, senão teria tomado mais dois.
Dizem que hoje em dia tudo é melhor.
Até que é mesmo.
Mas, parece que as lembranças tornam o passado muito mais doce ou amargo do que realmente foi.
Talvez por isso, as frutas do Líbano sejam as melhores do mundo, para os libaneses.
Talvez por isso, o Japão seja o lugar mais lindo da face da Terra, para os japoneses.
E talvez, por isso, o sorvete de hortelã seja inesquecível.
É pura saudade de um tempo que não volta, mas, não desaparece.
Porque recordações são assim mesmo: parece que foram embora, mas, continuam sempre no mesmo lugar.
Valéria Nogueira Eik
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