Idéias
Traje completo
22/11/2006
A cidade transpirava sob um calor de quase quarenta graus e ansiava por água fresca e descanso.
Os veículos se arrastavam no trânsito congestionado.
Se o velho Deus, cansado e míope, olhasse lá das alturas, veria uma grande cobra coral movendo-se lentamente pelos trilhos invisíveis do entardecer.
Gente indo a lugar nenhum; gente voltando de lugar algum.
- Que merda de trânsito! Que merda!
Era Marina, resmungando dentro do carro.
Olhava as horas no relógio de pulso. Um belo e inútil relógio. Marcava as horas, mas, não movia o carro e nem aliviava a tensão.
Suas inúmeras atividades a estavam consumindo.
Resolvera doar uma empresa importante para o irmão, que se encontrava numa difícil situação financeira.
Seus ganhos diminuiriam, mas, ainda assim, ficaria numa posição extremamente confortável e teria tempo para cuidar de si mesma.
Sentia que a sua saúde andava abalada.
Estava realmente exausta!
Carlos não aprovara a doação.
Seu irmão é um irresponsável! Em pouco tempo vai levar a empresa à falência! – dizia ele.
Carlos! Era um bom marido. Ganancioso, mas, um bom marido!
O celular tocou.
- Marina! Onde você está? Querida, estamos atrasados!
- Oi, Carlos! Estou presa neste trânsito miserável!
- Deixei o seu traje completo em cima da cama.
- Que traje?
- Eu escolhi aquele vestido vermelho, com renda francesa, amor.
- Querido! Fez a escolha certa!
- Eu sei, amor. É a sua cor predileta, e você fica maravilhosa!
- Obrigada, Carlos. Logo que me livrar deste trânsito maldito eu chego em casa.
Desligou o celular.
Estava muito cansada e ainda precisava atender aos compromissos sociais da noite.
Esmurrou a direção.
Sentiu que a ansiedade estava a um passo da loucura.
Traje completo!
A palavras atingiram o seu consciente como um raio fulminante.
Traje completo. Não coloque o traje completo. Traje completo...traje completo...
Mas, o que significava aquilo?
- Que bobagem! Perder tempo com frases idiotas! Minha vida já é um grande pesadelo! Não preciso criar mais um. Quero chegar logo em casa. Trânsito do inferno! Cidade do inferno!
O sinaleiro arregalou seus grandes olhos verdes, e, finalmente, a imensa cobra coral se moveu, arrastando consigo todos os carros, todas as angústias e todos os medos.
O prédio imponente estava silencioso, como convém a um condomínio de luxo.
A garagem abriu-se numa grande fenda, engolindo o carro e o mau humor de Marina.
O elevador panorâmico e elegante aspirou os restos do dia, transportando a mulher num vôo silencioso e rápido.
Finalmente, ela estava em casa.
- Até que enfim, Marina! Você sabe que este jantar é muito importante pra mim.
- Sim, eu sei. E como sei! Faz dias que você não fala em outra coisa.
- Não vamos brigar, amor! Tome seu banho e coloque o vestido vermelho. Você fica linda dentro dele.
Marina entrou no banheiro e trancou a porta.
Abriu as torneiras do chuveiro, tirou a roupa lentamente e sentiu o frescor da água sobre o seu corpo cansado.
Esqueceu-se do dia, esqueceu-se do trânsito, esqueceu-se do jantar.
E quando escutou as pancadas fortes na porta, assustou-se.
- Marina! Pelo amor de Deus! Estamos atrasados! Vista-se, querida!
Ela avistou o vestido vermelho sobre a cama.
Traje completo...traje completo...
Em minutos, estava pronta.
E quando apareceu na sala, vestida com o traje preto, Carlos demonstrou irritação.
- Marina! Eu escolhi o vestido vermelho. Quero que todos notem a sua beleza, querida! Troque a roupa, por favor.
- Desculpe, Carlos, mas, vou com o vestido preto. É mais discreto e adequado para a ocasião.
Do alto da sua terceira dose de uísque, ele parecia um bêbado teimoso, insistindo naquela idéia quase infantil.
- Querida! Prefiro o vermelho!
- Eu prefiro o preto, Carlos. E vamos logo!
O percurso foi feito em silêncio.
Marina conhecia muito bem o humor instável do marido.
E quando este humor era regado a uísque, o melhor a fazer era manter um mutismo absoluto, para não gerar faíscas naquele terreno altamente inflamável.
O jantar elegante transcorria sereno.
Marina estava alegre e um bem estar inexplicável pairava sobre ela.
Nem as conversas fúteis a estavam aborrecendo.
- Marina! Como você está linda!
- Obrigada, Rebeca. Você também está. Este seu vestido é deslumbrante. Adoro vermelho!
- Eu comprei um vestido preto para este jantar. Mas, na última hora, resolvi colocar o vermelho.
- Que coisa! Eu vinha com um vestido vermelho, e me decidi pelo preto depois do banho.
As duas amigas riram.
Mas, as risadas foram cortadas por um zumbido esquisito.
Rebeca caiu, atingida por um tiro.
O sangue vermelho misturou-se ao vermelho do vestido.
Abraçada à amiga morta, Marina encontrou, em meio àquela multidão de olhos assustados, o implacável olhar de Carlos.
Valéria Nogueira Eik
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