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Idéias

Uma versão da verdade
21/02/2006

E o cortejo fúnebre seguia silencioso.
Todas as mãos queriam tocar pela última vez o caixão muito branco, como se isto pudesse reter a vida que existira naquele pequeno corpo.
Nenhuma palavra escapava das bocas crispadas pelo ódio.
Nenhum suspiro ultrapassava as gargantas apertadas pela tristeza.
E todos os olhos estavam voltados para o por do sol, que levava consigo as risadas, as brincadeiras e os dias felizes.
Passo a passo, num compasso muito leve para não perturbar a pequena morta, o cortejo alcançou o cemitério.
E como se fosse um tesouro, Rosa foi guardada dentro da terra.
Nem mesmo os suaves jasmins plantados sobre a cova amenizaram o desejo de vingança.
Rosa ficou.
E todos se foram.
Todos menos um, que se mantivera escondido.
O corpo robusto e moreno tremia de dor.
Arrastou seu passo manco até a cova e ali despencou, tomado pela tragédia.
Era Amâncio.
Um homem simples que possuía uma alma doce, sempre encoberta pela aparência rude e quase assustadora.
Ele amara Rosa desde o instante em que seus olhos a viram, e silenciara o amor por saber que nunca seria correspondido.
E ele era o suspeito de ter matado a flor.
Rosa fora despetalada, num estupro seguido de morte.
E todas as vozes gritavam:
-         Foi Amâncio! Foi Amâncio!
Ela, a virgem de apenas quinze anos, a menina que se recusara a ser mulher, estava agora debaixo da terra.
Ele, parado diante da cova e do entardecer avançado, soluçava em desespero, pelo amor que se fora sem nunca ter sido.
Tremia de febre.
Com as mãos nuas, cavou a sepultura e arrancou de lá o ser amado.
Deitou-se ao seu lado e acariciou o rosto gelado.
Beijou a boca pálida e tentou roubar da morte os beijos que lhe foram negados pela vida.
Sussurrou carinhos inocentes.
E pediu a Deus que o levasse para junto de Rosa.
Nesse instante, sentiu uma pancada forte nas costas e a escuridão se apoderou do seu devaneio.
Genésio empurrou o corpo forte para o lado e olhou a morta com desejo.
Genésio, figura importante do vilarejo, abastado comerciante, seguia Rosa com os olhos lascivos, quando ela passava pelas ruas.
Salivava ante a visão das coxas bem torneadas e dos seios redondos e fartos, sempre cobertos por um vestido de algodão florido.
E o desejo, dia por dia, tornou-se obsessão.
E a obsessão ganhou asas, sobrevoando a flor mais cobiçada do vilarejo com promessas de uma vida confortável.
Mas, Rosa não queria ser amante.
Desejava ser apenas a menina que brincava descalça nas ruas poeirentas e que acalentava sonhos com um príncipe encantador e gentil, que viria num tempo certo.
Genésio não queria ter matado Rosa.
Mas, ela não parava de gritar e se debater.
E num ímpeto de raiva, apertou-lhe o delicado pescoço.
Não teve o gosto de cavalgar a potranca com vida.
Não teve a satisfação de arrancar dela os gemidos de prazer que ecoavam em suas loucas fantasias.
Rosa menina foi embora da vida sem saber que se tornara mulher.
Genésio guardou as lembranças e seu olhar lúbrico saltou sobre a morta.
E com a brutalidade que lhe era peculiar, possuiu a flor uma derradeira vez, sentindo o frio da morte e o calor da paixão.
Satisfeito em seu ardor, sentiu-se pronto para entregar ao julgamento popular a sua versão da verdade.
E a turba acéfala, ávida por justiça, fez do homem importante um líder, e juntos, arreganharam os dentes e rosnaram para Amâncio.
Ele ainda tentou dizer alguma coisa, mas, foi silenciado por uma chuva de insultos e empurrões.
Caiu ao lado da cova de Rosa.
Levou pauladas, pontapés e cusparadas.
Morreu pisoteado pelo lado obscuro da verdade.

 

 

Valéria Nogueira Eik

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