Idéias
A queda
20/03/2006
A rua conservava o seu habitual movimento.
Os carros lutavam contra as motocicletas e bicicletas.
As carroças deixavam rastros de merda pelo chão.
E os pedestres desviavam de tudo, na tentativa de alcançar o outro lado da segurança.
Um baque surdo, mais pressentido que ouvido, maculou a manhã de sol e agitou a curiosidade de todos.
Um corpo despencou lá das alturas.
Espatifou-se na calçada, manchando o concreto de vermelho, e deixando no ar um imenso ponto de interrogação.
Por que?
Oras, e desde quando o motivo é relevante diante do fato consumado?
O morto está estendido no chão.
Pronto.
Está lá.
E mais morto que isso, só se forem dois mortos.
Estamos todos sobre um fio de existência, que a cada dia se torna mais teso.
O espaço entre a sanidade e a loucura se tornou pequeno demais.
Ora estamos sorrindo.
Ora estamos tomados pela fúria.
Ora estamos calmos.
Ora estamos agitados.
E com a mesma mão que acariciamos, somos capazes de empunhar uma faca e cravá-la no peito mais próximo.
E com a mesma voz que cantamos doces canções, bradamos urros de revolta e de guerra.
Não sabemos mais quem somos.
Um grupo grande se forma ao redor do morto que ainda se encontra exposto à curiosidade.
Estamos todos apalermados diante da morte.
Por que?
Oras, porque somos esse cadáver.
E a sua queda simboliza a nossa própria queda.
Pois, cada ser humano que naufraga nas ondas da vida, leva consigo pedaços de alma, arrancados de todos nós.
Estamos interligados e não nos damos conta.
Olhem!
Olhem muito bem!
Na calçada, ao redor do cadáver, pedaços da nossa própria carne decoram o chão, descorando ainda mais a esperança de uma vida melhor
Valéria Nogueira Eik