Idéias
O cão nosso de cada dia
19/07/2005
A mãe dobrou a esquina empurrando um carrinho de bebê.
Logo em seguida, um “motoqueiro” alucinado, de uns três anos de idade, despontou freneticamente na mesma esquina, pilotando o seu velocípede com perfeição.
Era um garotinho feliz, cabelos lisos e espetados, mostrando sorrisos de uma total auto-confiança, que faria inveja a qualquer mortal.
Ele fazia manobras quase impossíveis e realmente tinha um talento especial com a bicicletinha.
De repente, o nosso corajoso piloto avistou um cachorro imenso à sua frente e empacou como só um jumento sabe fazer.
Ficou pálido e chamou a mãe.
- Mamãe, tem um cachorro ali na frente.
- Não tem perigo, meu filho. Vem!
- Não, mamãe. Tenho medo.
A mãe continuou o passeio com o bebê e o garoto simplesmente ficou paralisado pelo terror e não dava mostras de sair do lugar.
- Mamãe! Volta!
Ela seguia sempre em direção ao monstruoso cão, parecendo não se importar com o filho, com os sentimentos dele, com o seu pavor.
Os olhos do garotinho mostravam nitidamente todo o dilema e os conflituosos pensamentos.
Provavelmente ele estaria pensando: “se eu ficar aqui parado, vou ser atacado pelo desamparo e se eu seguir em frente, vou ser devorado pelo cão”.
Resolveu então disparar na direção da mãe e começou a trombar com o carrinho que ela empurrava.
Atrapalhava os passos da mulher, incomodava o passeio do bebê e estava realmente decidido a fazer valer o seu direito de ser apenas um menininho com medo de um gigantesco cachorro e poder voltar de onde viera, sem qualquer sentimento de pudor pela covardia que apresentava no momento.
Finalmente, a paciente mãe resolveu atender o desesperado pedido do filho e começaram a fazer a manobra de volta.
Nesse instante, a transformação ocorreu de forma muito rápida: os olhinhos apavorados se encheram de alívio e felicidade, e novamente o grande piloto se manifestou em toda a sua bravura e alegria.
Ele passou por mim esbanjando exuberância e simpatia, sorriu vitorioso e seguiu o seu caminho seguro, sem pensar que, talvez, na próxima esquina, encontraria um outro perigo.
Sem pensar que, muito provavelmente, durante toda a sua existência, encontraria uma infinidade de cachorros ferozes, com as caras mais variadas possíveis e não poderia fugir de todos eles.
E assim é a vida.
Por breve tempo temos a segurança dessa presença que se chama mãe e nos acostumamos a esse conforto, sem querer soltar a mão protetora.
Por total falta de preparo emocional, que é próprio do ser humano, não entendemos que logo ali, na próxima esquina, já estaremos sozinhos.
E para amenizar o pavor do desamparo, criamos sonhos e colocamos expectativas em tudo e em todos, na tentativa de trazer de volta ao nosso tempo, o tempo em que vivíamos em paz e tranqüilidade.
Enfim, éramos apenas crianças.
E chega o instante no qual descobrimos que, apesar da máscara de adultos que hoje usamos, ainda somos as mesmas crianças de ontem, e só então nos damos conta de que o passado não volta, que a vida não é infinita e que o futuro chegou.
Nessa hora percebemos que estamos mais velhos, que precisamos fazer ou refazer escolhas e necessitamos assumir nossos atos, tenham sido ou sejam eles, certos ou errados.
O frágil solo sempre estremece, abre-se em fendas assustadoras, mostrando a cara feroz do grande cão.
E continuará nesse eterno ciclo de calmaria e turbulência por toda a vida. Seremos obrigados a formar outro chão, mais outro, e outro mais, por vezes sem fim, ou até que o cão nosso de cada dia aprenda a ser aliado ao invés de inimigo.
Valéria Nogueira Eik