Idéias
Coisas de Criança
08/03/2005
A estrada de terra era cravejada de pedras de todos os tamanhos, parecidas com diamantes.
Algumas árvores formavam uma alameda refrescante, sombreando o caminho e amornando meus cabelos quase em fogo pela exposição ao sol escaldante.
Andar por ali fazia com que eu me sentisse uma arqueóloga ou uma colecionadora de pedras preciosas.
Eu era apenas uma criança com pouco mais de 10 anos.
Minha imaginação voava à frente dos meus passos, para rastrear pegadas de animais pré-históricos, sinais de mar onde só havia terra ou alguma agitação no solo indicando algum vulcão querendo despertar.
Coisas de criança.
Enquanto os dinossauros não apareciam para que eu lutasse com eles, eu aproveitava para encher uma sacolinha plástica com cristais de todos os tipos e diamantes que eu levaria para serem lapidados.
Enquanto o vulcão continuava adormecido, meus pensamentos se acotovelavam e se atropelavam na corrida até o final da estrada, que se transformava numa trilha sem fim.
Esperando aventuras, eu criava todas elas.
Vivia uma por uma numa febre de exploradora, de caçadora ou mesmo de princesa e cada estória explodia num lindo final de glória e amor perenes.
Quando alcancei minha imaginação, parei diante da porteira: a fronteira final, de onde eu não tinha ordem para ultrapassar.
Fiquei ali dependurada no portão grande de madeira, pesquisando com os olhos se era conveniente burlar as regras e escapar, por pouco tempo que fosse, desse pequeno mundo já explorado, mas, sempre propenso às renovações de cada manhã.
Coisas de criança.
Sim! Sim! Sim! Mil vezes, sim!
Valia a pena arriscar uns bons tapas no traseiro, para encontrar, talvez, um monstro de sete cabeças, um cristal raríssimo, um duende, ou quem sabe, uma lâmpada mágica de onde um gênio sairia feliz e realizaria três desejos meus.
O que eu pediria ao gênio?
Levei pelo menos quinze minutos elaborando os pedidos e isto me deu um trabalhão, principalmente na consciência, pois eu deveria pedir o que era justo e bom não só para mim, mas, para toda a minha família.
Queria um palácio maravilhoso e muito dinheiro, pois com isso eu daria uma vida de conforto para todos.
O terceiro pedido foi egoísta, mas, eu era apenas uma menininha sonhadora: pedi ao gênio que me desse um príncipe lindo, inteligente, generoso e que me amasse acima de qualquer coisa nesse mundo.
Coisas de criança absolutamente normal, que devagarinho vai entendendo como são construídos palácios e relacionamentos.
E enquanto o príncipe não chegava, abri a porteira e dei meu primeiro passo rumo ao desconhecido e ao proibido.
Meu coração gritava assustado dentro do meu peito e usava artifícios para me fazer voltar à terra da segurança, onde só existiam dinossauros, vulcões e pedras preciosas.
Mas, não teve sucesso, pois logo no primeiro passo, eu penetrei na terra dos sonhos e ganhei lindas asas azuis.
Minha imaginação ria alto e feliz, e juntas voamos pelo céu, dando rasantes nas nuvens macias, que sentindo cócegas desaguavam em risadas de chuva.
Avistei um arco-íris e manobrei as asas na direção das cores.
Nesse instante, senti minha orelha queimar.
Abri os olhos e vi meu pai muito próximo a mim, olhando de um jeito que significava tempestade.
Guardei rapidamente as minhas asas dentro da sacolinha plástica e mesmo sabendo que teria algum castigo por desobedecer ordens, sorri satisfeita, pois no dia seguinte eu estaria pronta para novas aventuras e com toda a certeza, traria o pote de ouro que, durante o vôo, avistei no final do arco-íris.
Valéria Nogueira Eik