Idéias
Cotidiano incolor: o fruto indesejável.
25/05/2006
O ventre profano crescia rapidamente e o fruto indesejável adquiria contornos e formas.
Júlia, em seus 20 anos, ganhara o drama de uma gravidez inesperada.
Tentara de algumas maneiras expulsar a vida que se avolumava dentro da sua própria vida.
Tudo em vão.
O ser germinava, calado e triste, amordaçado por espartilhos cruéis, seguindo persistente para o destino incerto.
E quando o aborto cirúrgico se insinuou, já era tarde.
Júlia trabalhava durante o dia.
Do trabalho seguia para a faculdade, onde cabeceava de sono sob as aulas intermináveis.
Escondeu a gravidez enquanto foi possível.
E aos sete meses de gestação, recolheu-se ao quarto pequeno e solitário, esperando um milagre ou uma tragédia, uma solução.
Muitos dias se passaram.
Muitos pensamentos se afogaram no choro abafado e no sono misericordioso.
E o parto foi assistido por alguns anjos e muitos demônios.
Júlia sofria calada, deitada sobre o lençol imundo, e de contração em contração, finalmente a criança veio ao mundo.
Não teve chance de chorar, de pedir ou implorar.
Em segundos, a pesada mão da crueldade gerada pelo desespero sufocou o pequeno ser.
Júlia não conheceu a voz que nasceu do seu ventre.
E nem quis olhar o rosto que se formara do seu próprio rosto.
Colocou o bebê num saco de lixo e dormiu.
Dormiu horas a fio até que as forças da vida a enlaçaram novamente.
Saiu de casa e o sol lhe virou as costas e a chuva lhe cuspiu na cara.
Que importava o sol ou a chuva, se ela estava livre, mesmo condenada a viver na escuridão?
Jogou o filho na correnteza do rio.
E ficou olhando o saco afundar lentamente nas águas geladas do inverno.
Virou-se, pisoteou os anjos e caminhou em direção ao recomeço.
Valéria Nogueira Eik