Idéias
Cotidiano
21/02/2006
Rodoviária, despedidas.
Coisa gostosa é viajar, mesmo sendo de ônibus.
Aliás, de ônibus pode ser muito interessante, dependendo do que se encontra nos bancos da frente ou de trás.
No banco do lado, é bom torcer e rezar antes de comprar a passagem.
Pode ter alguma mulher com uma criancinha no colo, daquelas de pescocinho mole e olhar distante, novinhas em folha, que costumam vomitar tudo por nada, e bem em cima de você.
Mas, para me prevenir contra enjôos meus e das pessoas, eu tomo um comprimidinho milagroso e durmo o tempo todo.
Pelo menos, não vejo, não falo, não escuto e não sinto coisa alguma de coisa nenhuma.
Enfim, entrei no ônibus e ao meu lado estava uma senhora que parecia ser muito distinta.
No banco da frente, um homem carrancudo.
E no assento de trás, mãe e filha.
Elas estavam conversando baixinho para não incomodar os passageiros.
Mal o ônibus saiu da cidade, escutou-se um chiiiiiiiiii autoritário e seco, que vinha do banco da frente.
Fez-se um silêncio constrangedor.
Comecei a perceber que apenas um comprimido não ia fazer efeito.
A filha e a mãe continuaram conversando, sempre num tom muito baixo.
Novamente ouviu-se o chi, só que agora, era muito maior.
- Chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Desta vez o silêncio ficou perigoso.
As duas não se deixaram intimidar e continuaram falando, mas, sempre no mesmo tom delicado e baixo.
O homem do chi ficou irado e gritou:
- Querem fazer o favor de fechar as matracas que eu quero dormir?
Pronto! Tinha sido dada a ordem de ataque.
E eu me encontrava exatamente no meio do bombardeio, sem nenhuma trincheira, moita ou árvore para me esconder.
A mocinha se levantou, olhou para o homem e disse:
- Fecha você a matraca e dorme!
A mãe, uma senhora muito educada, já se apavorou com a discussão.
- Filha, não faz assim!
Mas, a moça estava pronta para o combate.
- Mãe, ele não tem o direito de nos tratar dessa forma. Não estamos incomodando ninguém.
O homem carrancudo insistiu:
- Se não fecharem a tramela, a coisa vai ferver aqui dentro.
- Meu senhor! A coisa não vai ferver. Vai explodir!
- Cala a boca, “broaca”!
Nesse instante, toda a finura da mãe foi por água abaixo e ela gritou:
- Não fale assim com a minha filha!
- Eu falo assim com quem eu quiser!
Agora, o ônibus inteiro estava revoltado e todos os passageiros se levantaram.
O homem não esperava tamanha revolução e empalideceu.
- Dorme, corno!
- Atrevido!
- Só pode ser corno!
O motorista do ônibus percebeu a agitação e parou o veículo.
- O que está havendo aqui?
Um passageiro cheio de senso de humor explicou:
- Eu não sabia que era permitido carregar animais aqui dentro.
- E onde tem animais por aqui? Perguntou o motorista muito assustado.
E todos apontaram para o homem carrancudo:
- Tem veado, não está vendo o tamanho dos chifres?
Foi até um pecado torturar o homem, mas, foi um pecado delicioso.
Ele estava humilhado e vencido.
Não sei se dormiu, mas, acomodou os chifres da maneira mais silenciosa possível, e ficou quieto o resto da viagem.
Nós, passageiros, unidos pela vitória, encontramos assuntos mil para conversar.
Foi uma viagem muito divertida.
Para o corno, antigo proprietário do chi, foi inesquecível!
Valéria Nogueira Eik