Idéias
Moleca
09/06/2006
A moleca era miúda, cabelos longos e olhos castanhos, e a sua beleza era pálida e quase transparente.
Montada no lombo do cavalo, ela bem que poderia ser confundida com um peão qualquer da fazenda, pois as suas formas não eram exuberantes e seus cabelos viviam escondidos dentro do chapéu.
Era valente. Tão valente como o pai. Tão valente como os homens e as mulheres do seu tempo.
Coronel Estevão tinha poder, prestígio e posses.
E se Antônia levava aquela vida, era por puro gosto de viver junto à natureza rude e muitas vezes cruel.
Nunca desejou estudar.
Seus irmãos se tornaram doutores, cada um em alguma coisa.
Ela não, pois queria apenas ser livre.
Contava quinze anos quando conheceu Justo.
E Justo tinha quinze anos quando se apaixonou por Antônia.
Foi um casamento por amor, fugindo às regras da época, que impunham uniões por conveniência.
Aos dezesseis anos estavam casados por todos os laços do matrimônio.
Vida difícil, vida sofrida!
Moravam nas terras de Justo, herdadas de seu pai, falecido ainda muito jovem.
Dinheiro era um material escasso, mas, os filhos começaram a chegar.
Parecia que estavam atolados num tempo sem esperanças, pois a terra estava velha e cheia de vícios e preguiça.
E foi aí, que de comum acordo, eles venderam a fazenda, comprando terras num lugar novo e quase primitivo, mas, promissor.
A tosca mudança foi colocada num caminhão estropiado.
A filharada se empoleirou no colo da viagem.
Mãos acenavam um adeus que seria para sempre.
E assim, a família seguiu rumo ao futuro.
Foi um longo percurso, cheio de atoleiros, de poeira, de saudades, de cansaço e de medo.
Mas, marido e mulher tinham coragem de sobra, e esboçavam um riso rude e confiante, acalmando as crianças e os próprios corações.
Sabiam o que esperar pela frente, o que evitar pelas costas e o que desejar, desde que não fosse impossível.
Com o parco dinheiro, restante da venda da fazenda, Justo acomodou os familiares numa pensão muito simples, num vilarejo próximo às novas terras.
O rancho foi construído a toque de caixa e em poucos dias o caminhão pôde descarregar a pobre mudança, que passava de mão em mão, pequenas ou grandes mãos, pois todos ajudavam como podiam.
Quando Antônia parou, apenas para um diminuto descanso, olhou para fora e avistou a mata fechada e virgem que envolvia o casebre.
O horizonte possuía todos os tons de verde e ruídos assustadores.
Ela teve dúvidas se poderiam sobreviver.
Mas, Justo colocou os braços em torno dos ombros da mulher e deu-lhe a certeza de que tudo ficaria bem.
A golpes de machados e de alguns poucos braços, a mata foi se descortinando e mostrando as possibilidades de sucesso e os perigos.
Muitas jaguatiricas foram abatidas pelos tiros certeiros.
E as cobras não faziam cerimônia e nem pediam licença para rodear e entrar na choupana.
Cabia a Antônia matar ou afugentar as peçonhentas, enquanto Justo se encarregava de domar a floresta.
O tempo não gostava de brincadeiras.
Mas, a moleca ainda morava no interior da mulher e sempre encontrava algum espaço, mesmo que fosse muito pequeno, para se divertir.
Quando saía com os filhos, para buscar frutas no pomar, ou verduras na horta, ela ia à frente e não raro, encontrava uma cobra e matava.
Estendia a serpente morta exatamente no caminho em que as crianças iriam passar e ficava espiando o susto dos miúdos.
Era a maior gritaria e ela ria a mais não poder.
Esta, talvez, tenha sido a sua maldade no decorrer da vida, pois no mais, apenas trabalhou e trabalhou.
De noite, as crianças escutavam o casal conversando baixinho por um longo tempo.
Eles realmente eram amigos.
E continuaram amantes, pois mais filhos vieram, perfazendo um total de quinze, dos quais, apenas nove sobreviveram.
Morriam por tudo ou por nada.
E a dor da perda era forte, causando muito sofrimento em Antônia, que jamais esqueceu o cheirinho gostoso e único de cada bebê.
Segundo ela, todos teriam virado anjos e estavam felizes no céu, o que não acalmava a sua saudade.
Mas, a vida continuava numa ânsia desenfreada.
Os filhos foram estudar na capital e só voltavam para casa nas férias.
Ficavam horas e horas dentro de uma jardineira desconfortável, que sacolejava em meio aos buracos da estrada de terra.
E quando finalmente parava, já era noite fechada.
Eles desciam em frente ao cemitério, que ficava enterrado na mata, como quase tudo por ali.
Sentiam medo das almas penadas que andavam sem rumo e em grande número, criadas ou não pela imaginação das pessoas, que não tendo nada melhor a fazer, reuniam-se em torno das fogueiras e contavam casos e mais casos de assombração.
E essas almas arrastavam correntes pesadas e soltavam uivos terríveis, assustando crianças, moços e velhos, que viviam sob o domínio do medo apenas do invisível, porque ao que era visível e palpável, uma boa bala de revólver bastava.
Justo chegava quase sempre antes dos filhos e ficava sozinho em frente ao cemitério, segurando os cavalos e o desconforto de estar tão próximo aos defuntos.
Volta e meia, um fogo fátuo corria em busca de não se sabe o que, e era um espetáculo assustador.
Enfim, quando todos estavam acomodados sobre os cavalos, iniciava-se o trajeto que os levaria de volta à casa, à mãe e aos irmãos menores.
As saudades eram muitas e as lágrimas derramadas durante a separação, seriam mais que suficientes para fazer transbordar um rio.
Mas, por ora tudo era alegria, e em volta da grande mesa, as conversas passavam de boca em boca, da mesma forma que o apetite corria de travessa em travessa, saciando a fome de pão e calor.
Antônia beijou seus filhos, abençoando-os.
E naquela noite, dormiu feliz.
O dia amanheceu alvoroçado.
Os filhos homens seguiram com o pai para o eito.
As filhas ficaram com a mãe, ajudando nos afazeres domésticos, que eram muitos.
Mas, sempre sobrava tempo para as brincadeiras muito simples.
A peteca, feita de penas de pássaros, voava de um lado para o outro.
A bola não passava de uma meia, furada e cerzida várias vezes, e pulava de pé em pé.
E as bonecas de milho ganhavam roupinhas somente diante da imaginação das meninas.
De noite, depois da janta, da reza e das conversas, um bom livro, trazido da capital, podia ser lido por pouco tempo, pois os lampiões eram apagados muito cedo.
Tudo se apagava frente às primeiras estrelas.
E tudo recomeçava quando os pequenos astros se preparavam para partir.
O sol sempre podia ser visto ainda de pijama e com os olhos cheios de remelas.
E a vida prosseguia, voluntariosa e incansável.
A luz elétrica veio substituir os lampiões.
Um telefone apareceu, quase tão arcaico quanto a comunicação feita por sinais de fumaça.
Os diplomas foram acontecimentos comemorados com uma alegria merecida.
Médicos, dentistas, engenheiros, advogados e professores: todos se espalharam pela vida, cada qual procurando seu próprio destino.
Os casamentos resultaram em felicidade ou tristeza, mas, todos deram frutos.
Os netos eram muitos.
Os bisnetos também vieram.
E até tataranetos os velhos tiveram.
Cinqüenta anos se passaram.
Antônia e Justo ainda estavam juntos e apaixonados.
Sentados em suas cadeiras confortáveis, ficavam horas relembrando momentos e olhando a vida passar.
Sessenta anos se passaram e a morte veio buscar Antônia.
O marido e os filhos estavam em volta da cama que abrigava os resquícios de vida da moleca.
Justo segurou a mão da mulher, um filho apertou a mão do pai, que segurou mais outra mão, e de mão em mão formaram um círculo, onde o último toque acalentou a mão de Antônia, dando-lhe a certeza de que tudo ficaria bem.
E lá se foi a moleca para os braços de Deus, ocupar o seu lugar no céu.
O chefe da família ficou mais velho e mais calado.
Não sabia viver sem a mulher.
Em pouco tempo, a morte retornou, piedosa, levando Justo para os braços de Antônia.
Esta é uma estória de pioneiros, sempre corajosos, que povoaram as terras virgens, formando vilarejos e cidades.
Assim era a vida das pessoas que se arriscavam para trazer o conforto e o progresso onde só havia o nada que precede o tudo.
Esta poderia ter sido a vida de Maria e José, de Amélia e Joaquim ou de Elisa e Pedro.
Mas, foi a estória de Antônia e Justo.
Amém.
Valéria Nogueira Eik