| CRÔNICA
Um mundo perfeito
Estava digitando um texto qualquer, quando idéias estranhas,
alheias ao assunto que estava escrevendo me vieram à
cabeça. Era como se eu estivesse "conversando"
com alguém que sabia o que eu ia dizer, sem que eu ao
menos pensasse em falar. Imediatamente, minhas mãos,
sem meu consentimento, receberam ordens para escrever:
"Venho de um mundo distante anos-luz deste. Uma época
em que chegamos à perfeição. Nos aperfeiçoamos
a tal ponto que não precisamos mais do corpo. Só
da mente. Como o espírito é imortal, vivemos eternamente,
cultivando nossa inteligência. Desenvolvemos também
uma técnica para nos reproduzirmos sem a necessidade
destas "carcaças" que vocês ainda carregam.
Como conversamos? Imagine que você possa dialogar por
telepatia, como estamos fazendo agora. É assim.
Você já está imaginando como acontece a
reprodução. Como se dá o prazer sem o corpo...
Vivemos para produzir poemas, versos, filosofia... e para viver
o prazer. Entre vocês já há quem consiga
ter "orgasmos" ao conceber ou apreciar uma poesia,
uma música, o momento de um gol...
Assim, somos nós neste futuro que lhe descrevo. Posso
lhe garantir que nosso orgasmo é melhor que o seu. Ele
é puro, sem convenções.
Por falar em convenções, dentro do nosso aperfeiçoamento,
eliminamos a figura do sexo masculino e feminino. Somos todos
um híbrido, com o que há de melhor em cada sexo.
Você insiste no "ato sexual". Bem, quando dois
espíritos se atraem, iniciam uma espécie de acasalamento...
para vocês a palavra mais apropriada é "namoro".
Nestes momentos, nós filosofamos... É como um
desafio, em que os dois "medem" seu talento e sugam
o máximo de suas forças em busca da perfeição.
E chegam a ela. Neste momento é que se dá o orgasmo.
Você e sua mente poluída... claro que não
há o cigarrinho depois. Mas isto não nos faz falta.
Aliás, não sentimos falta de nem um tipo de vício,
de poluição, de dominação...
Presidentes, polícia, juízes...? Para quê?
Não se prende um espírito. Somos todos livres
e sabemos onde começa e termina nosso direito: em nós
mesmos. Onde não há poder, não há
disputas.
Não queremos medalhas, nem pódio, nem classificação.
Vivemos pelo prazer da busca da perfeição e pela
perfeição da busca do prazer.
Não há em nós espaço para sentimentos
negativos, crises existenciais ou para a dor. Isto tudo é
medieval. Descobrimos que a dor está no mal, no negativismo,
na guerra. Tudo gerado pelo poder. É o que o ser humano
no seu tempo faz o tempo todo: luta pelo poder. E quando todos
lutam por objetivos individuais, para sobrepujar o semelhante,
não há como haver apenas vencedores.
Claro que não é preciso chegar à perfeição
para descobrir estas verdades. Todos vocês, ou pelo menos
a maioria, sabe disto. Difícil é "viver"
esta verdade num mundo viciado, cheio de convenções...
Não, não estou aqui para execrar seu modo de
vida...
Por que estou aqui? Vim buscar subsídios para um novo
livro que estou mentalizando. Quando nos falta inspiração
– afinal, não somos perfeitos o tempo todo –
vagamos pelo tempo, pelo passado, em busca de alguma inspiração.
Às vezes brincamos com alguns de vocês e os imortalizamos.
Me lembro de um tal de Shakespeare, um cara um tanto avançado
para o seu tempo, que realizou algumas obras-primas depois de
uma conversa comigo.
Bom, o papo está bom, mas acho que vou vagar por outras
mentes e corações..."
Eu queria continuar o "diálogo". Meus dedos
queriam continuar escrevendo. Mas, as mensagens cessaram. Olhei
para meu corpo, maltratado, maltrapilho, coberto por vestes,
por pudores. Olhei para dentro de mim, cheio de convenções,
de vícios.
Uma luz me iluminou. Pensei na minha filha, que dormia no berço
e sorri: "precisamos ser otimistas. O futuro, mesmo que
distante, será melhor que Pasargada. Afinal, lá
não haverá necessidade de rei".
Dirceu Herrero Gomes
é jornalista em Maringá
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