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Maringá, 20 de maio de 2001

ALMIR SATER

Simplicidade do violeiro encanta Maringá
Músico, ator e defensor do meio ambiente, o pantaneiro Almir Sater esteve em Maringá onde apresentou seu show impecável e concedeu entrevista ao maringa.com

Maringá recebeu um dos músicos mais admirados na história da música brasileira. Jeito sereno, ar compenetrado e de declarações sensatas e equilibradas – heranças da formação em Direito – o pantaneiro Almir Sater fez o melhor show da 29º Expoingá, analisando a técnica musical entre todas as atrações que se apresentaram.


Almir Sater: jeito simples, mas talento de sobra

Nascido a 14 de novembro de 1956, na cidade de Campo Grande (MS), Almir Eduardo Melke Sater começou a tocar viola aos 12 anos. De maneira auto-didata, logo criou afinações próprias, só de fuçar no instrumento de 12 cordas.

No decorrer de seus 23 anos de carreira e dez discos lançados, o violeiro se firmou como um dos melhores instrumentistas brasileiros. Da Lupe e Lampião – dupla caipira no início da carreira em Mato Grosso – a gravar em Nashville – berço da música country americana – Almir Sater foi ator de cinema e telenovela e, como maior reconhecimento de seu estilo, tocou no Free Jazz Festival em 1989, no evento que reúne os músicos mais respeitáveis de todo o planeta. Sua experiência como ator impulsionou a carreira musical, já que músicas suas foram incluídas nas trilhas sonoras de "Pantanal", "Ana Raio e Zé Trovão" e "O Rei do Gado".

A relação com a viola é de paixão, assim como a com o pantanal, já que diz ser pantaneiro de coração e que o violeiro precisa sentir a viola no coração. Paixão essa que cresceu nos últimos anos, pois Almir Sater faz questão de declarar que está realizando um sonho antigo: o de levar o som de sua viola para muitas cidades do Brasil. Devido à agenda cheia de shows, o violeiro não têm tempo para compor e, muito menos, para pensar em gravar um disco novo.

Sua passagem por Maringá foi a confirmação de que a simplicidade diz muito mais que a vida de aparência dos artistas que se apresentam e dependem dos Gugus e Faustões da vida. Durante a entrevista coletiva para a imprensa maringaense, Almir Sater serviu café (!) às pessoas presentes, acendeu seu cigarrinho de palha e revelou gostar de desafios. Seu show foi o mais familiar apresentado na arena esse ano na Expoingá. Público predominantemente de meia idade e sentado, curtindo a viola chorar e o violeiro dedilhando poesia. Desafio vencido!

Na entrevista ao maringa.com, Almir Sater falou sobre sua carreira, gravadora, mídia e meio ambiente. Confira:

Maringa.com - Você têm um certo ranço com gravadora, tecnologia e tumulto de cidade grande. Como é o Almir Sater simples, isso é uma maneira de você controlar sua carreira e sua vida?
Almir Sater – Não tenho nada contra gravadora. Nem contra, nem a favor. Acho que a gravadora é útil para determinado segmento de artista. No meu caso, prefiro trabalhar sozinho, sem pressão, sem pressão contratual. É uma opção pessoal. A tecnologia, acho que ela têm contribuído muito para o conforto da humanidade. Polui um pouco, mas acho que ela contribui mais. A cidade grande não me fascina. Eu sou do mato, gosto mais do mato, me sinto melhor, a minha família também gosta. É questão de gosto.

A música sertaneja hoje em dia perdeu suas raízes e ficou mais romântica. Por que você acha que aconteceu isso?
Existe a música sertaneja romântica que está tendo muito destaque na mídia. Agora, a música caipira, dos violeiros sempre existiu e existe, só que a música romântica sempre fez sucesso. É um filão que sempre esteve na moda e sempre vai estar. A música de raiz é diferente, o caipira é diferente, é mais mocosado, mais tímido. Diferente do pessoal do "bunda-lêlê", por exemplo.

Além da afinação, quais as diferenças entre tocar violão e viola?
A viola, além de um instrumento, é uma concepção. É um jeito de tocar. É mais a técnica, as afinações é que diferenciam. A concepção de tocar violão é diferente de alguém que toca viola. É outra técnica, outra pegada, outro ponteio.

De certa maneira, você faz sucesso e não depende da mídia. Como é essa relação entre seu trabalho e a mídia?
Acho que a mídia sempre me apoiou muito. Não essa mídia de consumo. Mas sempre tive espaço, sempre o meu trabalho foi bem recebido. Fiz três novelas e isso é uma forma de mídia massificante. E, foram as novelas que me permitiram poder me isolar um pouco de mídia, de programas de televisão. Porque não têm nada que me motiva sair para fazer esses programas de televisão. Nunca gostei de fazer playback, porque quando eu gravo uma música, tenho dificuldade de cantar ela igual novamente. Várias vezes, tentei fazer playback e não conseguia sincronizar a minha voz com o que estava tocando. Mas, a mídia é a mídia...

Você têm planos de fazer televisão de novo?
Novelas, eu parei. Tudo que eu queria na minha vida era sair pra fazer show pra caramba, viajando. E eu consegui isso, esse pequeno espaço. Então, tenho trabalhado muito e tenho feito muitos shows. Era o que eu queria, então não justifica eu tirar o espaço de um ator profissional.

Como você analisa sua experiência como ator, foi frustrante, compensador...
Foi compensador... foi muito difícil. Até pelo fato de nunca me acostumar a horários e patrão, porque tinha várias pessoas que dependiam daquele trabalho, não era um trabalho meu. Eu fazia parte de uma produção, de um esquema e eu tinha que ter muito respeito. Por isso, fiz o melhor possível.

Atualmente, aqui em Maringá, têm uma discussão muito forte em cima do meio ambiente. Pra você, qual a importância da reciclagem de lixo, do cuidado com a natureza?
Você falou um negócio importante. Acho que a reciclagem de lixo é muito importante. Tenho viajado por aí e nota-se o grau de civilização pela quantidade de lixo que encontra-se nas ruas. Se você começar a rodar por esse Brasilzão, você vai ver que têm muitas diferenças com lugares muito sujos, muito mal cuidado e lugares limpos. Acho que é educação. A ecologia começa com a educação em casa.

Você têm a sua maneira de trabalhar independentemente de gravadora. Você acredita que a gravadora manipula e controla a carreira do artista?
Eu não acredito que uma gravadora manipula um artista. Ela manipula pessoas que são pseudo artistas, que fazem qualquer coisa para conseguir um espaço. O artista que têm talento verdadeiro, não aceita manipulação, a não ser que seja do interesse dele. As gravadoras jogam, porque têm um poder econômico muito grande e impõe nos meios de comunicação, corrompem pra poder vender seus produtos. Mas, não é só em gravadoras, em vários segmentos do mercado existe essa pressão econômica. Agora, as gravadoras estão muito por fora, estão perdidas. Ela teve um papel muito importante mas, hoje em dia, com a democratização dos meios de comunicação ela está ficando pra trás. Precisa acompanhar isso porque aquela mamata que ela tinha acabou.

Texto, entrevista e fotos: Andhye Iore

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