| ROCK ALTERNATIVO
Banda de Campinas, Astromato, que é
apontada como a grande revelação do cenário
pop brasileiro toca em Maringá neste sábado.
| O rock alternativo brasileiro
sempre foi pautado por uma polêmica: cantar em inglês
ou em português? Uns defendem que o inglês é
a língua oficial do rock e que em português
não soa bem, outros que o português torna a
banda mais coesa, pois se ela é boa as pessoas podem
entender isso mais facilmente, já que as letras e
os vocais não serão só uma maneira
de disfarçar a falta de qualidade. |
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Astromato ao vivo, conquistando fãs pelo Brasil
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Atualmente, o cenário brasileiro passa por um fenômeno
curioso. Bandas cansadas de carregar bandeira contra as gravadoras
que não abrem espaço para a cena independente,
passaram a cantar em português para tentar melhor sorte.
Outras bandas ótimas desistiram porque não queriam
mudar sua essência cantando em português.
O maior exemplo de amadurecimento e casamento perfeito entre
ser uma banda alternativa e cantar em português está
na banda Astromato. Formada em Campinas em meados de 1994, com
o fim das bandas Waterball e Kotton Krown, Armando e Pedro,
amigos de escola, estavam ouvindo Eugenius e comentaram que
gostariam de fazer um som como aquele, mais melódico
e diferente das iniciativas instintivas da adolescência.
Assim nascia o Weed, que gravou duas demo tapes e chegou a fazer
parte do fantasioso conceito de "bandas maravilhosas que
misturam barulho com melodia", que os fanzineiros adoram
reverenciar. O Weed era formado pelos guitarristas Armando Turtelli
(ex-Waterball), Pedro Ferreira (ex-Kotton Krown) e pelo baixista
Frebs (também ex-Kotton Krown). Todos cantavam e a bateria
era alternada entre uma drum machine ou um baterista "humano".
Mais ainda estava longe de ser o que eles queriam. "O Weed
também era adolescente e com pretensões adolescentes
também!", lembra Armando. Em 1997, Pedro passou
nove meses na Itália e, na sua volta ao Brasil, resolveram
mudar a banda. Trocaram o nome para Astromato e passaram a compor
em português. O som evoluiu de maneira impressionante.
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Resultado: o Astromato teve destaque na revista Showbizz e
na Folhateen da Folha de São Paulo, nas seções
de demo tapes. Em Campinas, a banda é apontada
como a próxima sensação do cenário
pop brasileiro se alguma gravadora investir neles. E,
não é difícil de acontecer. Ouvir
Astromato causa um sorriso instantâneo de prazer
auditivo. As músicas são pegajosas, belas
e sensibilizadoras.
As letras simples, falam de sonhos e amor (Sonhos de
Alta Definição), da morte de maneira otimista
(Cadeialimentar), da adolescência que ficou pra
trás e dos dias melhores do futuro (Canção
do Adolescente), do dia de preguiça (Ter Uma Canção)
e de poesia (Onda), letra que foi adaptada de um poema
de Fernando Pessoa.
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Sonhos Hi-Fi: qualidade inquestionável |
Sobre a evolução, Armando fala que foi um processo
de se tornar mais real: "O som foi evoluiu, pois aprendemos
a cantar e a tocar um pouco melhor. Com as letras em português,
nos colocamos mais à mostra com mais responsabilidade,
dando nossa cara prá alguem bater, ou quem sabe, acariciar."
Outro problema que sempre cercou as bandas brasileiras foram
as influências. Muitos jornalistas fazem questão
de rotular as bandas ou caracterizar uma banda pela sua influência.
No caso do Astromato, apesar das explícitas influências
de Teenage Fanclub e Jesus and Mary Chain, foi possível
se colocar acima disso. Ouvindo com mais atenção
as músicas, dá pra perceber passagens de Beto
Guedes e o Clube da Esquina, The Cure, Ride e My Bloody Valentine.
Mas é só impressão, porque é o resultado
de um amadurecimento passeando num pop que dá até
para parafrasear um trecho de Onda: é um pop que leva
ao coração. As influências existem, mas
elas se perdem quando a banda se reúne para compor e
gravar.
Sobre a falta de espaço (ou de organização)
no rock brasileiro, Armando cita um exemplo pessoal: "Nós
sempre vamos tocar em São Paulo. São 100 km e
dois pedágios. Temos que disputar R$ 50,00 para ajudar
nos custos! Isto porque as casas de shows tem uma infraestrutura
muito precária. Eu gostaria que houvesse mais respeito
entre as pessoas, acho que só isso já ajudaria
a resolver grande parte dos problemas do mundo mesmo..."
Mas, é sempre assim, as condições são
péssimas, as bandas são exploradas, mas continuam.
Talvez, isto seja um dos motivos para não acontecer uma
cena independente no Brasil, como existe na Inglaterra. Mesmo
que exista bandas competentes e profissionais. "O fato
de não existir uma cena alternativa forte está
relacionado com a Indústria Cultural. Talvez, a diferença
do alternativo pro não alternativo seja muito pequena,
a qualquer hora poderá ser "capturado" pela
grande indústria e assimilado por muitas outras pessoas.",
avalia Armando sobre o ciclo manipulado pela mídia, onde
um estilo não permanece muito tempo em destaque.
O Astromato já tem duas demo tapes, "Astromato"
(1998) e "Sonhos HiFi" que é um cd-demo gravado
este ano no estúdio Piranha, de propriedade de Armando,
onde gravam todos os artistas da região. "Gravo
desde sertanejo, trash, jingles e bandas legais. Assim, posso
me aperfeiçoar e dar melhor qualidade para o Astromato!",
revela o músico, mais uma das preocupações
e qualidades de sua banda.
O Astromato toca neste sábado, dia 1 de julho, em Maringá,
no Caixa D’Água, dividindo o palco com a banda
londrinense Grenade, numa promoção da Yessongs.
Apesar do Grenade já ter lançado cd e ter repercussão
no exterior, quem for ao show vai ter uma grata surpresa com
a banda de Campinas e corre o risco de se tornar fã eterno.
Já que quem conhece o trabalho da banda há muito
tempo, ainda ouve Weed até hoje. Ah, é importante
não esquecer de levar dinheiro para comprar uma fitinha
deles.
Confira a entrevista com Armando Turtelli:
Maringa.com – As letras do Astromato são belas,
simples, otimistas e sensibilizam facilmente. Como foi o processo
de passar do inglês para o português, ter um maior
cuidado com a sonoridade vocal?
Armando - Acho que você entendeu o principal motivo por
termos passado a escrever em português. Na realidade,
são dois os motivos principais: fazer com que as pessoas
nos entendam e, mais importante, conseguir transmitir alguma
coisa mais verdadeira. Quando a gente tá falando na nossa
língua temos maior controle das nuances das palavras,
seus significados mais íntimos, fato quase impossível
de se conseguir escrevendo num idioma que não dominamos
muito bem e que não está verdadeiramente internalizado
em nós. Fazemos músicas falando das nossas vidas,
sonhos, talvez menos preocupados com a forma e mais com a essência,
por isso acabou por sensibilizar mais as pessoas. Hoje em dia,
eu acho que estamos mais com os pés no chão, tocando
por gostarmos de tocar e tentando fazer isso da melhor maneira
possível. Seria maravilhoso viver disso, mas também
é maravilhoso viver fazendo isso.
Maringa.com - Muito se fala sobre as influências ( e
muitas besteiras). No caso do Astromato, até que ponto
as bandas que vocês gostam influenciam no trabalho de
vocês?
É, esse lance das influências é realmente
complicado. Acredito que não dê para falar, no
caso do Astromato, que tal música pareça muito
com tal banda e outra música pareça muito com
outra banda. Acho que pra gente, as bandas que gostamos, de
alguma maneira penetraram dentro de nossas cabeças (coração)
e instigam-nos a fazer músicas desse jeito, mas sempre
colocamos nossa bagagem de vida nelas. Cada um faz músicas
de um modo muito pessoal e é no momento em que essas
músicas são arranjadas pela banda que elas viram
músicas do Astromato.
O Frebs adora Teenage Fanclub, o Pedro My Bloody Valentine,
O Armando Jesus and Mary Chain, Rafael Ride, mas nós
gostamos disso e de muitas outras coisas. Ouvia muito Legião
quando moleque, gostava muito e acho impossível que isso
não influa no modo como coloco uma frase ou outra dentro
de uma música...o que você acha? Nós quatro
gostamos basicamente das mesmas bandas, do mesmo som....o engraçado
é que The Cure ninguém ouve ou ouviu muito, mas
as pessoas sempre fazem algum comentário relacionando
o som deles ao nosso.
(Bom, basta ouvir Cadeialimentar...)
Maringa.com - Como você vê a questão do
mídia rotulando tudo, criando modas passageiras?
No estudo da Comunicação existe autores como Adorno,
Horkheimer, sobre a escola de Frankfurt..., apesar da distância
destas idéias e da mudança que ocorreu no mundo,
eu vejo a situação atual com aqueles olhos. Existe
uma Indústria Cultural que busca ditar regras de condutas,
comportamento, pensamento, para satisfazer os interesses do
grande capital. Existem muitas nuances e muito a ser discutido,
mas pra mim a essência é essa. Rotulam para encaixar
as coisas novas nos gostos das pessoas, mas não é
algo estático e sim dinâmico, fabricam gostos,
rótulos pra poder abocanhar o que for possível
para poderem ganhar sempre mais. É o que move o capitalismo,
dinheiro, expandir pra conseguir sempre mais...
Maringa.com – Apesar das dificuldades, vocês não
desistiram. Mas, várias bandas legais não tiveram
a mesma atitude de vocês...
No ano passado fui para Brasília visitar um amigo e acabei
encontrando o Giulliano, da Low Dream. Ele estava desiludido
com o rock, ou melhor, com o fazer rock no Brasil. Estava gostando
bastante de música eletrônica, raves, dj’s...fiquei
meio decepcionado, pois a Low Dream pra mim foi uma banda tão
marcante que na minha cabeça não deveria ter acabado
assim..., mas o que aconteceu foram fatos na vida pessoal dele
e assim foi...não é fácil....
Maringa.com – Qual é a dificuldade de se formar
uma cena alternativa no Brasil?
Não existe interesse imediato da Indústria Cultural
em investir massivamente neste nicho de mercado. Eu acho que,
de certo modo, ele está aumentando, mas é difícil
de se ver de dentro disso tudo o movimento maior. Se a mídia
dissesse em alto e bom som que ser alternativo e ouvir músicas
alternativas é "cool", aposto que esta cena
apareceria muito mais forte ao mesmo tempo que o alternativo
seria bem menos alternativo.
As pessoas que hoje em dia vão aos shows "alternativos"
assistem televisão e se vestem como as pessoas que lá
aparecem, por exemplo. O que será que isso quer dizer?
Raimundos, acho que pode ser encarado como um exemplo de alternativo
que foi assimilado pelas pessoas através da mídia.
Sem dúvida, temos muitas bandas maravilhosas aqui no
Brasil (não estou falando dos Raimundos) que poderiam
contagiar os ânimos de grandes multidões...
Andhye Iore
29/06/2000
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