| MÚSICA
Jazzista americano Jeff Gardner, de passagem por
Maringá, fala da influência da MPB em sua música
Pianista
de extrema criatividade harmônica, o músico Jeff
Gardner, de 47 anos, tem múltipla cidadania espiritual
e cultural. Nascido em Nova York, morou vários anos em
Paris, gravou um disco em Cuba, vive pela Europa dando workshops
e passa temporadas no Brasil desde o início dos anos
80. Começou a tocar com 5 anos de idade e sua formação
partiu do piano clássico com Ruth Shöntal, depois
jazz com Jaki Byard, Don Friedman e John Lewis, depois harmonia
com a conceituada professora Nadia Boulanger e, finalmente,
MPB e bossa-nova ao ouvir Tom Jobim, Milton Nascimento e Dori
Caymmi. Gravou 9 álbuns como band leader, além
de vários como membro de bandas. Seus últimos
trabalhos são o álbum "The Music of Chance
– Jeff Gardner plays Paul Auster" (1999) e o livro
de método para músicos "Jazz Piano –
Creative Concepts and Techniques" (Ed. Lemoine –
1998).
| Gardner resolveu vir para o Brasil depois
de tocar num grupo em Paris formado por brasileiros que
viviam contando histórias sobre o país.
Era o empurrão para conhecer de perto os ritmos
brasileiros. O resultado é um gringo falando e
escrevendo português corretamente e, até
usando gírias, além de adorar moqueca de
camarão.
Nestes 20 anos de visitas freqüentes ao Brasil,
Jeff Gardner já tocou com grandes nomes da música
brasileira como Hermeto Paschoal, Victor Assis Brasil,
Dori Caymmi, Hélio Delmiro, Nelson Veras, Gilberto
Gil e Paulo Moura. |
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Capa do novo disco |
Refletindo seu estilo melódico e suave na música,
Gardner tem um jeito sereno e simpático com uma conversa
que revela o amor à natureza, de onde tira inspirações
para novas composições. Em muitas de suas músicas,
é explicita a influência do ritmo brasileiro, indo
além da MPB conhecida no exterior, mas explorando ritmos
regionais através de pesquisa e contatos com novos músicos
brasileiros.
Visitando amigos em Maringá antes de ir para São
Paulo onde tem uma apresentação agendada para
esta segunda-feira, Jeff Gardner concedeu uma entrevista exclusiva
ao maringa.com que você confere a seguir:
Muitos músicos brasileiros tem melhor conceito no exterior
que no Brasil. O que fascina tanto os estrangeiros na MPB?
Jeff Gardner – Eu vou falar por mim. Pra mim, a música
brasileira é a mais perfeita mistura de letra, swing,
ritmos, harmonia e riqueza de folclore. É a criatividade
que fez com que a música brasileira penetrasse fundo
na música popular do mundo através da bossa-nova
e do samba. E quando eu venho pra cá eu descubro mais
coisas, mais riquezas que não aparecem na mídia
mas que influenciam o meu trabalho.
O que você acha do fato de alguns artistas brasileiros
terem mais valor no exetrior?
Isso acontece mais pros músicos que fazem som instrumental.
Esse problema não dá nem pra discutir, as grandes
gravadoras só tem interesse em vender muitas cópias
e rápido. Infelizmente, as pessoas que ganham mais mídia
não tem mais valor musical. Nesse ramo de música
instrumental, nós sabemos que poucos entre nós
vão ser ricos de dinheiro, então a gente procura
outras riquezas de espírito.
A música popular vive de novidades e modismos passageiros,
o jazz aceita inovações e virtuosismo, mas na
música erudita não surge novidade. Os grandes
músicos clássicos de hoje são interpretes
de antigos compositores sagrados. Por que é tão
difícil fazer música erudita nova?
A corrente da escola de Viena deu uma freada na aceitação
da música erudita porque se afastou da forma de canção,
melódica que pode ser assimilada pelo povo. A música
erudita no século 20, em grande parte, virou uma coisa
de elite que se afastou do povo. Não estou dizendo que
essa escola não tem valor, mas a minha influência
é mais de compositores que souberam fazer um som moderno,
só que com raiz, com uma linha melódica, como
Vila-Lobos. Eu gosto de bolar coisas que tem uma pesquisa harmônica,
um fundamento rítmico e melódico que as pessoas
podem entender.
De certa maneira, podemos dizer que você fez um caminho
inverso. Os brasileiros sonham em ir para o exterior para tocar
e você vem sempre pra cá ...
Em 1980 em vim pro Rio e fui apresentado ao Vitor Assis Brasil
e ele me convidou pra integrar o seu grupo no Festival Monterrey
no Maracanãzinho. Foi maravilhoso chegar no Brasil e
ser convidado pra fazer um show com esse gênio que é
o Vitor Assis, abrir o show do Pat Metheny e tinha um público
de 15 mil pessoas. Foi uma coisa mágica pra mim, eu nem
sabia que tinha esse festival quando peguei o avião.
O Brasil tem sido assim, sempre tem surpresas musicais pra mim
aqui.
Nos países que você passou, há ensino de
música nas escolas?
Sim. Os Estados Unidos tem uma vantagem de uns dez anos sobre
a Europa. Nas universidades, quase todas tem um departamento
de jazz, tem acesso a livros e informação sobre
música. Na Europa está chegando agora essa mentalidade.
Eu acabei de fazer uma turnê em quatro países apresentando
o meu livro em workshops nos conservatórios de música
moderna. No Brasil também está abrindo espaço,
no Rio tem escolas boas de músicas, em Belo Horizonte,
em Salvador, a escola do Zimbo Trio em São Paulo tem
ótimos professores. É bom porque o aluno pode
escolher se quer estudar música popular, moderna ou erudita.
(agradecimentos ao Centro de Educação Musical
Solar do Som, na Rua Néo Alves Martins, 3193, onde Jeff
Gardner concedeu essa entrevista e nos brindou com a apresentação
de uma de suas músicas ao piano da escola)
Saiba mais de Jeff Gardner em seu web site: http://interjazz.com/jeffgardner
Texto e entrevista: Andhye Iore
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