| Maringá, 15 de maio de 2001
JOTA QUEST
Astros pop trazem positividade à Expoingá
A idéia inicial em "Oxigênio" é
o mundo já acabou, vocês destruíram tudo.
Mas, depois, falei "...ainda é possível voar,
o mundo ainda é verde e, mesmo com a fumaça, o
ar é oxigênio!", diz o vocalista Rogério
Flausino.
Formada
em 1993 e despontando para o cenário musical em 1995
em Belo Horizonte, a banda Jota Quest é composta por
cinco rapazes tocando black music. Porém, a sonoridade
da banda propunha algo mais que ritmos dançantes calcados
em funk e soul. Os meninos de BH incorporaram rock e criaram
um conceito extremamente pop para a banda, destacando as letras
positivas.
Formada por Rogério Flausino (vocal), Marco Túlio
(guitarra), PJ (baixo), Paulinho Fonseca (bateria) e Márcio
Buzelin (teclados), a banda consolidou uma carreira vitoriosa
com boa vendagem dos discos, shows lotados e crescendo aos poucos.
O início foi como qualquer outra banda. Disquinho independente
embaixo do braço correndo atrás de gravadora.
"É um pouco rápido pra quem tá de
fora, mas para nós não é tão rápido
assim. Saímos do quartinho da casa do pai do Paulinho
pra estar viajando o país inteiro e fazendo disco.",
afirma Marco Túlio ao maringa.com sobre o sucesso da
banda.
Aproveitando o estouro de canções como "Fácil"
e "Encontrar Alguém", o quinteto trabalhou
a imagem e conseguiu um inédito e rentável contrato
com a Coca-Cola para fazer comerciais do refrigerante Fanta.
Um detalhe curioso na formação da banda é
que Rogério só começou a cantar no grupo
depois de 13 vocalistas terem sido reprovados. Outra detalhe
é que a banda precisou mudar o nome J. Quest para Jota
Quest em função de uma ação judicial
movida pela Hanna-Barbera, estúdio americano de animação
onde foi criado o desenho Johnny Quest, de onde a banda se inspirou
para o nome.
O Jota Quest se apresentou no sábado (12) em Maringá
como principal atração da 29º Expoingá
e concedeu uma entrevista ao maringa.com:
Maringa.com – De banda independente
a uma das bandas de maior sucesso no país. Como é
pra vocês essa relação de sair de baixo
e chegar a popstar?
Paulinho - A gente não é bem popstar...
é muito bom ter esta estrada porque já tivemos
outras bandas, ralamos bastante e sabemos bem o que é
isso, dá uma certeza do que fazer, qual caminhos trilhar.
Nós cometemos menos erros na carreira. Tivemos a sorte
de não ter tido um estouro logo de cara, viemos devagar,
construindo cada degrau. Hoje, sentimos uma banda que têm
uma banda legal, com solidez e história formada.
Marco Tulio – Acho que é a estrada. Ao mesmo tempo,
é tudo novo pra gente. Por mais que tenhamos feito mais
de 600 shows na carreira, ainda têm muita coisa nova rolando.
Belo Horizonte têm uma cena cultural muito forte, com
farta produção de quadrinhos, cinema e música.
O que move essa agitação cultural de BH?
MT – Ao mesmo tempo que têm a cena cult,
underground, alternativa também têm a cena pop
e todo mundo mistura isso e solta pro Brasil inteiro várias
coisas. O que não temos ainda é um veículo
de mídia nacional que seja gerado ali com matéria-prima
todo esse cenário cultural e que leve isso pro Brasil
inteiro. Qualquer estado fora do eixo Rio-São Paulo têm
que buscar isso.
Vocês não acham que a Rede Minas, da Tv Cultura,
não faz isso?
P – É a única que faz isso, é
o único veículo que temos. Mas é muito
pequeno perto do que é feito. Eu vi o Alto Falante outro
dia, porque lá em Belo Horizonte eu não vejo e
vi em outra cidade e tinha toda a galera que produz o programa
é amiga nossa...
MT – É muito pouco pelo tanto de coisa
que têm lá...
As letras do Jota Quest são pra cima, falam de coisas
positivas. Realmente vale mais a pena falar de coisas positivas
que ficar se lamentando?
Rogério – Eu acho sim. Sempre fui otimista.
Quando tudo tá escuro, embaçado, um sorriso ilumina
o caminho. Bola pra frente, cabeça pra cima. A idéia
inicial em "Oxigênio" é o mundo já
acabou, vocês destruíram tudo. Mas, depois, falei
"...ainda é possível voar, o mundo ainda
é verde e, mesmo com a fumaça, o ar é oxigênio!".
Sempre têm uma coisa assim, ainda dá. Pode ser
que um dia acabe tudo e eu morra falando bobagem, tipo "...ô
cara ficou falando aí e não adiantou nada!",
pode ser. Mas eu acredito num futuro próspero. As letras
do Jota são assim. Acho que você pode mostrar os
problemas, mas têm que dar perspectivas de soluções.
É muito fácil ficar falando que tá ruim,
difícil é acrescentar. Então vamos trabalhar,
botar o time em campo e vamos jogar a partida. A gente tá
tentando. A gente fala de política, de ecologia, sempre
chamando "Bicho, vêm aí, vamos fazer a sua
parte!". Porque cada um fazendo a sua parte a gente pode
melhorar. Amor também a gente fala e isso têm que
falar porque é de todo mundo, porque a gente é
muito amoroso e apaixonado.
MT – No último disco já têm
coisas mais introspectiva. Mas, nós somos assim, temos
perspectivas de sonhos, boas expectativas de futuro e a nossa
maneira de trabalhar é em cima disso. Não ignora
que acontecem coisas ruins, mas retratamos tudo isso com perspectiva,
uma visão de um futuro melhor. A vida não é
só isso não, mas têm artistas que retratam
o outro lado tão bem. Cada artista faz aquilo que acha
que faz de melhor e mais sincero. Não têm porque
fazer tudo. Conseguimos expressar essa nossa vertente de uma
maneira tão sincera e coerente que as pessoas vêem
isso nas entrevistas, nos nossos shows, no dia a dia. Não
têm porque ser diferente do que sentimos. Muito mais que
alegria é perspectiva, um lado construtivo de tudo isso.
P – Essa preocupação sempre tivemos
de não ser deprê. Vamos passar a coisa séria
de uma maneira mais tranqüila. A galera consegue ouvir
um "De Volta ao Planeta", fazendo festa e pensando
em coisa séria. Não é nada preparado, é
nosso jeito de fazer as coisas.
MT – Ontem eu vi um cara falando "... o
povo quer isso...", que nem o Netinho fez sucesso com o
programa dele e fala "O povo quer isso!". Aí,
na Marília Gabriela, um programa totalmente diferente,
falam "O povo quer isso!". Cara, o povo quer tudo!
A gente quer um pouco de tudo que vêm preenchendo. Por
isso o sucesso de cada banda, cada programa, cada marca de roupa
um completa o outro. Tudo isso preenche o ser. Quem faz isso
com qualidade e sinceridade consegue o seu lugar.
Como vocês já precisaram correr atrás de gravadora,
como vocês vêem o fato das majors não investirem
em bandas novas?
MT – Temos dois caminhos hoje em dia. Primeiro,
pequenos selos que pegam artistas segmentados, que estão
no gueto. Por exemplo, o funk carioca que vêm sendo
trabalhado há muito tempo através de selos
pequenos. A partir do momento que ele ganhou corpo, a gravadora
veio e vendeu pro país inteiro. Hoje em dia, o trabalho
da gravadora é uma espécie de supermercado
que só vai trabalhar artistas e segmentos que tenham
um potencial de venda. |
|

Marco Túlio e Rogério passam boas perspectivas
aos fãs
|
Funciona assim e eu não vou te dizer se é certo
ou errado. O que acho é que nós que temos como
parceiros uma gravadora, vemos isso como uma parceria. Jogamos
com essas regras a nosso favor fazendo o nosso som. Se isso
for interessante pra eles pra vender, aí a parceria vai
ficar bem. Não pode é inverter a ordem como É
O Tchan fez. Inverteu a ordem de valores e prioridades deles.
A questão de oportunidade pra quem tá começando
é o potencial ser coerente com o que a gravadora quer.
Quando estávamos começando, não viemos
de nenhum gueto, de nada. A gente vinha fazendo black music
num momento em que as bandas estavam fazendo reggae por causa
do Skank, ou tipo Raimundos, ou pagode, ou axé.
P – O lance de gravadora é que ela não
está deixando de lado nenhuma banda. Ela procura sempre
e a gente vê isso porque levamos material pra lá
e os caras escutam procuram conhecer. Paralelo a isso, vêm
o modismo e eles investem nisso porque eles vivem da grana e
destrói todo um movimento. Como o funk que já
tá caindo pelo excesso de exposição, colocaram
um monte de porcaria. Cada artista, pequeno ou grande, têm
que ser auto-suficiente, não pode depender daquilo. Nós
usamos a gravadora pra divulgar e colocar nas rádios,
que é algo muito difícil. Mas, paralelo a isso,
corremos por fora não dependendo de nada. Se ficássemos
acomodados esperando a gravadora, íamos estar nas dores
do mundo, do mesmo jeito.
MT – Quando algumas coisas caem na gravadora,
principalmente coisas que não gostamos, falamos "Tomara
que a gravadora pegue e faça muito sucesso!", porque
quanto mais rápido fizer sucesso, mais rápido
acaba também e a gente fica livre disso.
E o lance da mídia que pode criar um sucesso, bem como
derrubar um artista... vocês acham que não sofrem
essa manipulação?
MT – Existe um roteiro de trabalho no universo
da música pop. Você têm que estar sempre
presente pra que as pessoas conheçam o seu trabalho que
têm a vida útil muito curta. Poucas são
aquelas músicas que viram clássicos e você
ouve a vida inteira. Nem tanto o céu e nem tanto a terra.
Têm que usar a televisão, o rádio, a imprensa,
tudo isso é vitrine pro seu trabalho. Você pode
usar isso pro bem ou pro mal. Pode ir no Gugu e fazer um playback
que não é uma coisa tão do bem. Mas, você
pode ir lá e fazer a Banheira do Gugu, levar seu pai
e sua mãe, fazer o Domingo Legal, enfim... Têm
que saber conduzir isso. Duvido que as gravadoras obriguem seus
artistas a fazerem isso, acho que é muito mais da ambição
do artista de querer fazer certas coisas ou não. O artista
que faz sucesso, acho que é muito mais mérito
do artista que de qualquer gravadora.
DISCOGRAFIA:
J. Quest (independente, 1995), J. Quest (1996), De Volta ao
Planeta (1998) e Oxigênio (2000).
Texto, entrevista e fotos: Andhye Iore
Voltar
|