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LOS HERMANOS

Los Hermanos toca em Maringá pela primeira vez
fala que a mídia precisa dar espaço para todos os estilos e que eles não são "a banda de um sucesso só"

A banda carioca Los Hermanos existe desde 1997 e, depois de tanta ralação distribuindo as duas demo tapes , "Amor e Folia" (janeiro de 1998) e "Chora" (setembro de 1998), foi convidada para tocar no Festival Superdemo, no Rio de Janeiro. O início da conquista das rádios e dos corações das adolescentes começou no Festival Abril Pro Rock, em Recife, em 1999, quando foi apontada como a revelação do evento. O resultado foi o convite para gravar pela nova gravadora Abril.

O disco "Los Hermanos", que também pode ser chamado de aquele disco com "Anna Júlia", tem apenas 36 minutos recheado de ska core, numa inusitada inspiração em samba-canção. É um disco de festa musical para festas. O hit da banda foi composto inspirado numa menina da faculdade que o empresário era apaixonado e, como os dois eram tímidos, eles fizeram a música para dar uma força. Caso corriqueiro na vida de qualquer um. As letras são recheadas de ilusões amorosas, devaneios sentimentais e esperança de conquistar a garota amada. Outro motivo que justifica a identificação com o público são as músicas com nome próprio. Além do hit, tem ainda "Aline" e "Bárbara" , afinal é difícil alguém que não conheça nenhuma garota com esses nomes. Esta última canção conta com a participação de Roger, do Ultraje a Rigor, nos vocais e a letra fala da soliadriedade ao amigo que é maltratado pela Bárbara.

Falar tanto de amor pode causar estranheza nas pessoas que não conhecem a banda mas, sem dúvida, o que mais prejudica a imagem da banda é o conceito formado pela mídia em cima da tal música de sucesso. Muitas pessoas se frustram nos shows porque esperam várias canções parecidas com "Anna Júlia", mas a banda só toca ela uma vez e no final. Porém, existem outras músicas legais e totalmente diferentes, o que falta é um pouco mais de informação e saber que uma só canção não representa o valor de uma banda. Mas, é graças a essa musiquinha pegajosa, inspirada em Weezer, que muitas pessoas conhecem Los Hermanos. É um paradoxo que vale a pena.

No show da 28º Expoingá, Los Hermanos fez um set curto com menos de uma hora. O show foi animado, como é comum nas bandas que tocam ska. A banda tocou uma cover de "Ciúme", do Ultraje a Rigor, numa versão mais lenta. Os metais, trombone e trumpete, dão um toque curioso para quem está acostumado com banda de rock só com guitarra, baixo e bateria. No final, o delírio foi total com a "tal música" cantada em coro por crianças, adolescentes e adultos.

Já está tocando nas rádios o segundo single da banda. "Primavera" também é uma balada e deve agradar as tietes leitoras de Capricho. O bom é que Los Hermanos vai continuar tocando cada vez mais e levando uma sonoridade legal para várias cidades e rádios que não tocam rock.

Na entrevista, Marcelo Coelho (vocalista e guitarrista), Bruno (tecladista) e Barba (baterista) mostraram um bom humor e, apesar da tietagem exagerada, que estão sabendo administrar o sucesso. Prova da descontração foi a versão minimalista, ao estilo Phillip Glass, da tal música apresentada no intervalo da entrevista.

Maringa.com – Bom, de Weezer eu sei que vocês gostam. E de Mighty Mighty Bosstones, tem alguém na banda que gosta?
Tem, o baterista que não tá aqui, ele gosta de Mighty Mighty Bosstones.

Afinal, Los Hermanos é uma banda de ska core? No disco, das 14 músicas, dez são assim...
Cara, eu acho que colocar um estilo num artista é meio complicado, porque se coloca uma grade em torno do estilo que ele enxerga tantas diversidades. Você falar pra gente que a nossa banda é de ska core e a gente responder que não conhecemos nenhuma banda de ska core, é mentira. No nosso som tem influência de samba-canção em todas as letras e nas harmonias, no som do Barba tem as influências de death metal e heavy metal melódico que ele ouve, no teclado do Bruno tem as referências de funk e jazz, pra nós é complicado falar que é uma banda de ska core, apesar da roupagem muitas vezes ser. Talvez, nesse disco tenha sido ska core, mas as músicas novas já não são tanto.

Tem três músicas do disco que falam "... um outro alguém..." na letra. O Marcelo deve ter passado por umas desilusões violentas. Você tem conhecimento de causa pra escrever tanto sobre isso?
Cara, tem por ouvir muito samba-canção. Um outro alguém, na verdade, é uma maneira muito poética de se tratar uma pessoa por quem você foi trocado. Eu sempre gostei muito dessa expressão, "um outro alguém" é impessoal demais. Acho que é a forma mais impessoal de se tratar uma pessoa é chamá-la de um outro alguém. Eu confesso que, neste disco, isto tenha se tornado um pouco repetitivo, foi um ato falho.

Como toda banda de rock, vocês tiveram a batalha de correr atrás com demo tape nas mãos, conseguir um espaço. E, agora, que tem sucesso, algumas pessoas cobram que Los Hermanos é banda de uma música só. Como vocês encaram essas cobranças que acontecem o tempo todo?
É muito ruim a gente ter que provar que passou por essa luta. Não era necessário isso, porque nós temos uma relação com o underground muito antiga, eu fiz fanzine durante muito tempo. Quando nós lançamos as demos, sabíamos o que fazer com elas. A gente fez de tudo que uma banda nova pode fazer, distribuia demo por fanzine, ia em casa de show com a fita, xerocava filipeta pra distribuir. Tanto que o nosso respaldo, da nossa história, é calcado na época que a gente tinha no underground carioca. O público que liga pros lugares pedindo nossas músicas, nossos shows,é o público do underground, das bandas alternativas. E com o sucesso e explosão de uma música, parece que a história inteira se desmancha e cria-se um mito de uma banda de um sucesso só.

Por que que vocês acham que não se forma uma cena independente no Brasil? Tem banda, tem público, mas a coisa não anda...
Eu acho muito relativo. Existem muitas bandas boas, que quase ninguém conhece, bandas que vivem num cenário onde 90% do público tem uma banda também. Mas, é uma cena muito restrita, toda cidade tem uma panelinha de 200, 300 pessoas que gostam e vivem aquilo. Então, fica muito difícil, nenhuma banda consegue sobreviver vendendo 300 discos na sua cidade. Não dá pra fazer aqui como o Fugazi faz nos Estados Unidos. É um lance de mercado mesmo, um mercado pequeno num país subdesenvolvido, as pessoas não tem dinheiro pra comprar e isso não gera diversidade de gosto. Por isso,o mercado underground segue uma panelinha pra sempre.

Existe um crédito ao Abril Pro Rock no sucesso de vocês?
Total, cara. Isso, todo mundo pode falar. Quando a gente foi convidado pra tocar, a gente sabia da importância disso. No nosso caso foi fundamental, porque foi a partir de lá que foi o propulsor pra nossa carreira. Tivemos boas críticas no jornal, é um festival que tem caído em relação a cobertura da mídia. Cada ano, os jornais dedicam menos atenção e, na nossa vez, demos sorte porque era tudo pior, tendo menos atrações interessantes, menos cobertura da imprensa e menor organização. Todo ano, espera-se que alguém sobressaia e foi a gente e duas semanas depois estávamos assinando contrato com a Abril, gravando o disco um mês depois e foi tudo muito rápido.

Mas, vocês não acham que a queda dos festivais acontece porque os organizadores mudam o rumo, começam a trazer bandas de majors pra tocar no meio das independentes?
O que aconteceu no Abril Pro Rock foi que se tornou de proporção tamanha que passou a ser um grande filão. Se alguém deixar de ir no show de uma banda pequena porque no final tem um show do Paralamas do Sucesso, esse alguém é um infeliz, não merece ser chamado de underground. O festival continua abrindo espaço para as bandas iniciantes, mas trazendo uma atração conhecida, de grande gravadora, no fim da noite.

Isso é a rivalidade que existe no meio alternativo que impede o crescimento da cena?
A cena do Rio de Janeiro é muito boa nesse sentido, não existe rivalidade, as pessoas se ajudam muito, marcam shows juntos, o cara que faz a capa da demo de um faz da demo de outro, as pessoas trocam informação, dividem equipamento, existe uma boa vontade muito grande e não existe rixa. Nós já tocamos com bandas de estilos completamente diferentes do nosso, das cenas e sub-cenas existentes e isso é uma prova de que não existe rivalidade. Mas, no entanto, é uma cena que não vai pra frente. Eu conheço todas as pessoas que vão nos shows, desde quando comecei a ir nos shows underground, as pessoas são as mesmas. Há cinco ou seis anos é assim, um ou outro sai da cena, algumas bandas conseguem tocar nas rádios e a galera numa boa. Acho que é um problema de público mesmo. É um fenômeno que não tem público. O público brasileiro curte outras coisas, por enquanto.

Nós conseguimos fazer uma entrevista sem falar "daquela" famosa música de vocês...
Olha o cara, nem falou o nome da música! (risos)

... é que todo mundo só fala nessa música quando se fala sobre Los Hermanos, eu acho que tem coisa mais importante pra falar. Vamos falar da mídia. Como vocês vêem o lance da mídia que dita as regras na música brasileira e um estilo não consegue permanecer muito tempo em evidência?
Mais do que um estilo, é uma indústria tão monocultural que eles promovem uma banda, mais que uma banda eles promovem uma música. É superfragmentada. É muito triste, eu fico muito triste. Existe muita gente equivocada quando diz que o rock tem que voltar, tomar as rédeas. Se for pro rock voltar e tiver a mesma autoridade que o pagode e o axé tem nas rádios hoje em dia, eu já tô votando contra também. O interessante é pluralidade.

No disco tem ska, hard core, carnaval, jazz, sentimentalismo, dor-de-cotovelo. Qual é a concepção de tanta coisa diferente reunida num disco?
Todo mundo da banda ouve muito som diferente. A gente não era da mesma patota, a gente morava longe um do outro, tivemos infâncias completamente diferentes. A nossa formação não foi como as outras bandas que saiam procurando músico, a gente foi se conhecendo. Acho que é uma das paradas que mais dá orgulho na nossa banda é como todo mundo conhece de música absurdamente diferente uma das outras. Todo mundo tem uma vontade muito grande de conhecer caminhos diferentes pra fazer música. A nossa banda não tem nenhuma influência de nenhum medalhão.

As músicas novas também tem essa concepção de trazer coisas diferentes?
Cara, isso é uma parada muito inconsciente da gente. Esse lance da fazer arranjo e música é uma parada nova porque o disco foi gravado com o repertório que a gente tinha, eram músicas que a gente fez pra tocar em shows, pensando nos shows. Agora, com a certeza de gravar o disco com as músicas, isso deve influenciar de alguma maneira o jeito de compor.

Saiba mais sobre SKA, SKA CORE e Mighty Mighty Bosstones

Texto e entrevista: Andhye Iore

11/05/2000

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