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ENTREVISTA

Marisa Monte diz que gosta de ser útil
Em entrevista exclusiva ao maringa.com, a rainha da MPB faz revelações sobre sua personalidade

Uma popstar que dá ao termo uma conotação charmosa e intelectual. Marisa Monte já não é mais uma artista de sucesso só no Brasil. Seus discos são lançados em dezenas de países e seus shows internacionais tem lotação esgotada com comentários elogiosos da mídia.

Uma veia que vem pulsando tanto quanto à musical é a de artista multi-mídia. Desde criança Marisa Monte teve interesse por cultura. Já como musa da MPB, expandiu sua admiração por artes plásticas, convidando o artista carioca Ernesto Neto para criar o cenário da turnê de divulgação de seu mais recente disco, "Memórias, Crônicas e Declarações de Amor".

Batizada de "Nave Show Esfinge Caranguejo", a escultura é feita com malha de nylon, medindo 8m x 14m e cobre o palco nos shows criando um clima intimista e de movimentos curiosos graças às projeções em vídeo de outro artista, Cláudio Torres, um dos responsáveis pela Conspiração Filmes.

Em uma entrevista exclusiva ao maringa.com, por telefone, Marisa Monte falou desse cenário que estará em Maringá neste Sábado, da admiração por Phillip Glass, de seu público, de seu trabalho, entre outras coisas.

Andhye Iore – Você tem um lado artístico muito latente. Além da música, você se interessa por artes plásticas e fotografia. Você acha que quem assimila cultura tem uma maior alegria de viver?
Marisa Monte – Procuro, em todas as áreas, a melhor qualidade possível porque me faz mais feliz mesmo. Tudo isso é muito poderoso, por exemplo, consumir música de má qualidade é uma coisa que interfere no astral. Eu tenho a preocupação e o prazer em conhecer coisas novas e de qualidade, fazer com que a minha vida seja agradável e interessante. Acho que o consumo cultural passa por isso. Se você fica na frente da televisão o dia inteiro, é muito difícil ser feliz. E há uma grande chance de ficar entediado.

A sua música tem referências regionais, resgata estilos de outras épocas e mistura rock com pop. Qual é o conceito Marisa Monte de música?
É muito uma extensão da minha personalidade, das coisas que eu escuto, da cultura que nasci, na qual estou inserida, isso tudo reflete no meu trabalho. É tudo muito intuitivo, não é tão racional e conceitual em primeiro plano. Primeiro a gente cria, depois teoriza sobre, pensa sobre. Em todas as áreas, eu conversando com artistas, eles falam isso também quando comparamos método de produção, método de criação sempre concluímos que a arte tem vida própria. Ela independe um pouco da pessoa que está criando. Por mais que você tenha domínio dos meios de produção e criação, sempre existe um percentual de inusitado, improviso e inesperado nessa história de criação. Tudo tem vida própria, por mais que você programe sempre sai um pouco diferente e surpreende ao próprio criador no resultado final.

Qual é a sensação quando você pára pra refletir sobre o trabalho do Ernesto Neto e do Cláudio Torres interagindo com o seu?

Olha, são parceiros tanto quanto o Arnaldo e o Carlinhos Brown. Só que não tem a visibilidade que a música dá. O Cláudio, por exemplo, trabalha comigo desde muito antes do meu primeiro disco. Ele fez a minha primeiro filipeta, fez a capa dos meus dois primeiros discos, fez meus primeiros cenários.  

A escultura "Nave Show Esfinge Caranguejo": uma atração a mais no show de Marisa Monte

Ele e o Lula Buarque trabalham comigo desde antes da Conspiração. Eu vi todo o embrião da Conspiração acontecendo. Enfim, são pessoas com quem eu venho trabalhando há 15 anos e que são fundamentais (nesse ponto, Marisa já fala com empolgação) na minha carreira. São pessoas com quem eu adoro checar as informações, pensar junto, elaborar junto os conceitos e evoluir junto. Eu observo o trabalho deles e eles observam o meu e somos referências uns pros outros. O Ernesto igualmente, porque eu adoro artes plásticas, acompanho o trabalho dele há muito tempo, conheço ele há muitos anos também e acredito que pensamos muito parecidos em relação ao compromisso com a música, com a arte, compromisso com a criação acima do lado comercial e industrial do lance. Acho que isso tudo faz com a gente tenha muitas afinidades e torne muito legítimo o trabalho da gente juntos.

Você conseguiu um destaque no exterior, até em mercados fechados como o americano. O que você acha que causou essa admiração de outras culturas pelo seu trabalho?
Lá fora eu tenho um público bem mais restrito que aqui. É um público com a cabeça mais aberta, interessado em ouvir música em português, interessado em outras culturas, como a brasileira. É um público muito interessante, iniciado, culto que tem crescido graças às turnês consecutivas, de um trabalho lento e gradativo. Pra fazer uma carreira lá fora eu teria que morar fora do Brasil e eu não tenho essa vontade porque a minha carreira é estruturada aqui, eu moro aqui e quero continuar a morar aqui, pelo menos por razões pessoais. Porque eu não vou mudar de país por razões profissionais. Lá fora não é público de massa, mas é um público interessante, que me interessa porque tenho tido cada vez mais reconhecimento do próprio meio, dos artistas, não só músicos, mas de artistas de cinema e teatro que acabam se aproximando através do interesse pela cultura brasileira. Isso eu acho bacana, acho legal representar esse lado bacana do Brasil porque acho o Brasil um exportador de música e acho bom está envolvida nisso.

De certa maneira, podemos dizer que você foi uma privilegiada: teve uma boa formação cultural, morou na Europa, foi apadrinhada pelo Nelson Mota, trabalhou com o Ryuichi Sakamoto, com a Laurie Anderson, com o Phillip Glass, com o Naná Vasconselos, entre outros. Lógico, não desprezando seu talento, mas o que teve fundamental importância na sua carreira?
Acho que tive muita sorte. Primeiro de Ter nascido no Rio que é uma cidade difusora de música no Brasil. Eu não tive que vir de outra cidade pra produzir aqui. Tive acesso à informação, à educação muito cedo que é um adianto pra quem quer trabalhar com arte. Acima de tudo, acho que sou uma pessoa muito produtiva, sempre gostei de ser útil. Eu trabalho muito e acho que além do aspecto de sorte, acho que soube ajudar a sorte, dar o melhor de mim e trabalhar muito para que tudo isso se potencializasse neste trabalho de comunicação que acontece com o meu trabalho.

Como que rolam as participações no seu trabalho?
Cada caso é um caso. Geralmente, são pessoas interessadas em música brasileira. O Sakamoto, a Laurie Anderson, o Phillip Glass, o David Byrne que já tinham vindo ao Brasil, já tinham tocado no Brasil, já gostavam de música brasileira e conheciam o meu trabalho. Isso tornou legítimo essa troca no meu trabalho. Eles vem porque gostam de música brasileira.

Tem algum momento ou situação espacial que você tenha boa lembrança desses trabalhos com outros artistas?
Ah, (suspirando) muitos momentos. Gostei de todos, mas o que adoraria de trabalhar de novo é o Phillip Glass. Pela objetividade, profissionalismo dele e o talento, o resultado artístico que eu acho muito bonito.

Você tem um site divulgando o seu trabalho. Qual a sua opinião sobre a disputa da Napster com as gravadoras? Até que ponto é válido trocar arquivos musicais pela Internet?
A Napster vai acabar amanhã, né?!? Acho válido, acho que tem que ter mecanismo de controle porque senão, em vez de ser algo que estimule a produção, vai ser algo que pode asfixiar a produção. Tem que ser algo que democratize os meios de distribuição mantendo, ou talvez aumentando o potencial de produção e criação. Pra isso, é claro que direitos autorais tem que existir, tem que Ter um controle. Isso não é um assunto final ainda. Acho que a tecnologia anda mais rápido que mecanismos de controle legais.

Nas turnês internacionais o que é melhor pra você: fazer shows individuais ou tocar em festivais?
Fazer shows indivudias (enfática) ! Quando você faz show em festival, não dá pra colocar cenário, não pode Ter uma luz, tem menos tempo pra passar o som, divide o espaço na mídia. E quando a noite é só sua, tem todo o conforto. Na última, turnê a gente levou todo o cenário e mostramos o mesmo show que mostramos no Brasil. Isso é um diferencial em relação aos que os artistas brasilieros fazem lá fora. É muito importante dar esse espaço pra mostrar que o Brasil tem essa preocupação de estrutura cênica. Rende mais o trabalho e você faz com mais conforto. Acho que é uma conquista fazer show sozinha.

Além dos conceitos culturais citados anteriormente, você também trabalha com conceitos alternativos como foi a capa do disco "Barulinho Bom" em homenagem ao Carlos Zéfiro e da música "Gentileza" que trata de um tipo de literatura em grafite. Como você trabalha com esse conceitos nem tão conhecidos, mas muito valorosos?
Acho interessante o diálogo entre a música e outros tipos de manifestação artística. Cada uma dessas presenças tem um motivo. O do Zéfiro, porque acho que é art pop brasileira. Acho que ele é o Lichtenstein brasileiro. No mesmo momento, nos anos 60, existia o Andy Wharol nos Estados Unidos, existia o Zéfiro aqui, que é um dos fundadores da art pop brasiliera. E, acho que o que eu faço também é pop brasileiro (risos). Então, de alguma maneira, existe um paralelo nessas duas formas de expressão no sentido conceitual mesmo. No caso do Eça de Queiroz, eu adoro. A presença dele na música "Amor, I Love You" é uma presença de uma forma de expressão mais acadêmica, mais didática. Em contraponto ao resto da música que é muito coloquial, direta. Uma coisa faz bem à outra. Aproxima o público maior da obra do Eça, mas também propõe esse contraste dessa linguagem muito simples da música com o português de altíssimo nível do Eça.

Como já foi citado, há interesse de artistas estrangeiros na música brasileira. No rock pop alternativo, tem um exemplo recente de bandas como Stereolab e Yo La Tengo que se apresentaram no Brasil e tem influências declaradas de bossa nova. Como você analisa essa situação da música brasileira sendo idolatrada lá fora e aqui há um pouco de descaso?
É engraçado porque a bossa nova é o que ainda representa mais o Brasil fora do Brasil. Mas, a música brasileira vai além disso hoje em dia. Há uma falta de contato com o que acontece na produção contemporânea no Brasil, que leva a tudo o que acontece lá fora. Não que eu não goste, eu adoro. Mas acho que é um pouco limitado essa visão da música brasileira. Acho interessante, gosto e acho que é uma linguagem muito forte e por isso que mantém representando o Brasil por todos esses anos. É engraçado porque não é o que é mais popular no Brasil no momento. É uma música de 40 anos atrás que representa o país no exterior.

Texto e entrevista Andhye Iore

08/03/2001

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