| RAIMUNDOS
Banda brasiliense faz um dos melhores
shows em Maringá e fala sobre a mídia, de ter
sido roubada pelo empresário e da cena independente no
Brasil.
A
BANDA
O Raimundos surgiu em Brasília no início dos anos
90 e, movidos pela paixão pelo hard core e punk rock,
começaram a tocar covers do Ramones. Rodolfo (vocalista
e guitarrista), Fred (baterista), Canisso (baixista) e Digão
(guitarrista) apareceram para o Brasil no Festival Juntatribo,
em 1993, em Campinas. O curioso é que o Raimundos nem
constava na lista de 27 bandas que iriam se apresentar nos três
dias de festival. Mesmo desconhecidos, fizeram um dos melhores
shows do evento. Tanto é que foram convidados pela organização
a dar um bis no último dia do festival. O forró-core
iniciava a conquista do país.
A partir daí, a história é conhecida.
O Miranda criou o Banguela, que lançou o Raimundos, que
vendeu mais de cem mil cópias de um disco independente.
Depois veio o contrato com a Warner, à qual o Banguela
era filiado, e o sucesso nas rádios. Em 1994, a banda
tocou no Festival M2000, em Santos, com as bandas Lemonheads
e Rollins Band. Também em 1994, tocaram no Phillips Monsters
of Rock em São Paulo. Em 1996, tocaram no Hollywood Rock,
com Robert Plant & Jimmy Page. Também em 1996, novamente
no Phillips Monsters of Rock, com Iron Maiden e Motorhead, além
de irem para a Espanha participarem de um festival de bandas
novas.
O Raimundos é um caso à parte no cenário
da música brasileira. É a única banda de
rock (rock mesmo, e não pop rock) que tem liberdade de
criação, que a gravadora não manipula.
É curioso porque essa situação não
se repete com outras bandas, já que o Raimundos vende
muito bem.
DISCOGRAFIA
• Raimundos (94)
• Lavô Tá Novo (95)
• Cesta Básica (96)
• Lapadas do Povo (97)
• Só No Forévis (99)
O SHOW
O Raimundos já havia tocado em Maringá outras
vezes. Algumas em festas em chácaras ou em boate, ou
seja, longe do público da banda. O show dessa segunda-feira,
dia 8 de maio, na 28- Expoingá foi um dos mais animados
na carreira da banda. Mais de 35 mil pessoas espremidas na arena,
cantando e pulando o show todo. É nessas horas que se
entende como a banda tira energia para tocar, mesmo estando
esgotados durante o dia, como estavam na entrevista coletiva
no hotel à tarde.
Foram 31 músicas, em duas horas de show. As músicas
que mais animaram o público foram "Eu Quero Ver
o Oco" , "Puteiro em João Pessoa" , "A
Mais Pedida" e "Mulher de Fases", quando Fred
saiu da bateria, foi à frente do palco e aplaudiu o público.
Depois de uma hora e 45 minutos, a banda parou para um intervalo
e voltou para outro set com covers de Rage Against the Machine,
Nirvana e Trashmem. O show acabou com uma session de percussão
entre os quatro.
Texto: Andhye Iore
A ENTREVISTA
Andhye Iore – De uma banda que tocava covers do Ramones
até o primeiro lugar nas rádios. É claro
que vocês não imaginavam que chegaria onde chegou.
A partir de que momento vocês sacaram que o Raimundos
era uma banda grande?
Quando a gente trocou de empresário (risos)! Um momento
particular que rolou foi quando a gente foi tocar no Monsters
of Rock, um show com altas dificuldades técnicas, a gente
era muito inexperiente e mesmo assim a gente se deu bem e na
segunda-feira seguinte, a gente foi passear na Galeria do Rock,
bem no centrão de São Paulo e eu vi as primeiras
camisetas do Raimundos vendendo nas lojas e, pô, fiquei
orgulhoso pra caralho! Esse momento foi legal, mas teve também
quando a gente tava em Belém e tava escutando uma rádio
e aí eu lembro que "Selim" bateu primeiro lugar
direto e anunciaram o nosso primeiro disco de ouro. Foi muito
louco porque a gente tinha acabado de fazer uma viagem de 24
horas de ônibus de linha, de Fortaleza a Belém,
e eu ficava imaginando "... disco de ouro, 100 mil cópias
vendidas, cara isso aqui que é o sucesso? É a
maior mentira então aquele negócio de glamour,
de viajar de jatinho..." Na verdade, até agora não
rolou. O sucesso no Brasil é bem isso. Se você
não trabalha, é disso pra muito menos ainda. Tendo
clareza no seu trabalho, é bem interessante. Em relação
a dinheiro, eu pensei que o dinheiro fosse entrar na minha conta
a partir de "Lavô Tá Novo", quando a
gente ganhou o primeiro disco de platina. Na verdade, ele começou
a entrar em meados do ano passado. O dinheiro tava na casa do
empresário. A gente trocou de empresário e o dinheiro
começou a aparecer cinco anos depois.
A. I. - Vocês tem noção de que o Raimundos
não precisa mais correr atrás de gravadora com
demo tape na mão?
Cara, eu sei que hoje qualquer gravadora gostaria do Raimundos.
Mas, a gente tá colhendo frutos do trabalho de anos atrás.
A gente deixou de ser seduzido por propostas de gravadoras no
início e ralamos esse período todinho e chegar
agora e ter toda essa recompensa, de não ter que impor
o repertório à apreciação de outras
pessoas. Todo o histórico da gente facilitou, de uma
banda que o primeiro disco independente vendeu 100 mil cópias,
fez com que o nosso contrato não fosse um contrato padrão
dentro de uma gravadora. É uma banda que pode se gabar
de ter um contrato, a divulgação discutida entre
o nosso escritório e a banda.
A. I. - Por que vocês acham que não se forma uma
cena independente no Brasil? Tem banda, tem público,
mas a coisa não anda ...
Tem todo o ranço da gravadora que a cena independente
não consegue admitir isso, sacô? Tipo, o ponto
que uma major teve mais próxima de uma cena independente
foi na época do Banguela. Acho que não se repetiu
o evento Banguela no Brasil. Pela primeira vez, rolou uma parada
de brodagem, a parada rolou por causa de um consenso, as pessoas
tinham que fazer alguma coisa por aquela cena que tava ali forçando
a tampa. O próprio meio independente tem um ranço
do que pode crescer. Vai acabar rolando, quando a cena se torna
expressiva suficiente, ela arrebenta com tudo, arranca a tampa
toda.
A. I. - Vocês acham que o fato da maioria das bandas
da cena alternativa cantarem em inglês atrapalha?
É opção. A gravadora daqui só vai
se interessar se a gravadora lá de fora quiser encontrar
alguma coisa aqui dentro que seja em inglês ou então
ela não vai ter interesse. Essas gravadoras grandes dificilmente
elas vão contratar alguém que cante em inglês
para trabalhar no mercado nacional. Isso é claro e evidente.
Eu lembro até quando a gente chegou em São Paulo
pela primeira vez, as pessoas olhavam pra nossa cara e perguntavam:
"Por que vocês cantam em português?" Você
pode criar uma sonoridade legal em inglês, mas a mensagem
é o que vale. A pretensão inicial do Raimundos
não era tocar lá fora. O nosso objetivo sempre
foi fazer sucesso no Brasil. Buscar a sonoridade na sua língua
natal é que é o desafio, é que é
o legal.
A. I. - Vocês fizeram uma crítica com o lance
dos pagodeiros, com a mídia. Como vocês vêem
o ciclo da música brasileira, onde a mídia dita
as regras e os estilos não duram nos meios de comunicação?
O sarro não foi nos pagodeiros. Poderia ser nos sertanejos.
Só que o Raimundos tem quatro e o sertanejo, geralmente,
é uma dupla. A gente tirou um sarro na mídia em
geral, como formação que existe quatro pessoas
na banda, a gente não podia posar de dupla ou de banda
baiana que, geralmente, tem uma loira e uma morena que dançam,
foi por um problema de formação. Então,
a gente pegou um grande ícone dos anos 90, que é
o pagode, e isso é inegável, e a gente pegou pra
fazer uma crítica à mídia. É o caso
da letra da "Mais Pedida", será que você
vai ter que se vestir de alguma forma pra ser bem aceito nas
rádios, na televisão? A crítica foi bem
aceita, apesar de não ter sido bem entendida.
A. I. - E sobre as bandas que aceitam mudar a sonoridade, o
visual só pra aparecer na mídia? Vocês não
fizeram isso...
É uma questão de incoerência nisso. As pessoas
que escutam rock falam: "Pô, só tem espaço
pra pagode, pra axé..." , aí quando dão
o espaço pro rock e as bandas ocupam esse espaço,
as pessoas começam: "Ah, eles fazem rock, não
deveriam estar nesse programa!". Na hora que dão
a liberdade pra se escolher o que é bom e o que é
ruim, as pessoas correm. Tudo é feito por oportunidade
porque as pessoas não gostam só de música
baiana ou só de sertanejo. As pessoas não tem
nem a oportunidade de saber se o rock é bom ou ruim.
Isso, a gente preencheu essa lacuna. Também forçou
uma situação, porque antes só tinha o Programa
Livre com música ao vivo, aí começou um
monte de programa colocando música ao vivo. Ainda existe
o canhestro playback, mas já tem a opção
de ver uma banda tocando, rolando microfonia, tocando banda
que nem tem disco ainda.
Maria Isabel - Vocês já tocaram aqui outras vezes
em festas de rock e hoje vocês vão tocar num evento
agropecuário. Isso é normal pra vocês?
É normal. E tem mais uma coisa, o mercado de feira é
o melhor mercado que tem, é o mais honesto que tem. Aquele
público que não tem dinheiro pra ir ao show de
boate ou de festas onde pagaria R$ 20,00 ou R$ 25,00, aqui paga
menos de R$ 10,00. Quem não tem grana e quem tem grana
vai. É a forma mais democrática de se fazer um
show.
A. I. - Voltando à relação dos independentes
com o mainstream, das disputas, do independente ser abosrvido
pelas majors, de como os alternativos se vendem facilmente.
Como exemplo teve o Abril Pro Rock que começou na mesma
época do Juntatribo e agora teve um monte de banda das
majors...
Tem aquele ranço do não poder crescer. Mas tem
como crescer sendo independente, só que o crescimento
dentro do mercado independente parece que é uma coisa
prejudicial e não é. É por isso que sempre
vai ficar com essa mentalidade muito pequena. Crescer não
é vergonha pra ninguém não. Também
tem aquele negócio de integridade. Nós damos graças
a Deus por estarmos na Warner e por eles sempre darem liberdade
de criação pra gente. Por a gente Ter vendido
um disco de ouro num selo independente, eles pensaram: "Esses
caras tem um público, então não vamos estragar
isso..." Eu lembro no "Lapadas do Povo" que foi
um disco que, naturalmente, teve menos palavrão e os
caras da gravadora "Pô, vocês estão
pegando leve?". A palavra independente deve vir quando
ela realmente existir, não adianta a gente gritar: "Eu
sou independente!" e ficar se fudendo. Quando a gente for
realmente independente, aí a gente vai ser independente.
Agora a gente cresce e precisa da mídia, mas quando a
gente tiver público suficiente pra não precisar
de ninguém, a gente pode ter uma gravadora e fazer as
coisas nós mesmos, porque o que dá apoio é
a galera. É usando os meios que o sistema oferece pra
tentar passara sua mensagem.
A. I. - Pra encerrar, acho que o Fred
não vai lembrar, mas no Juntatribo estávamos sentados
eu, o Fred, o Carneiro do Mickey Junkies e o Giovani da Low
Dream...
Fred - Que bandidagem! (risos)
...Nós estávamos falando
sobre esses lances de gravadoras e o Fred falou que não
agüentava, que era muita ralação, pressão,
que queria gravar o primeiro disco que era o sonho dele e que
depois ia largar tudo e cuidar da vida dele...
Antes do primeiro disco você corre, corre, corre atrás.
Você escuta coisas de gravadoras que você gostaria
de não escutar, tipo "Ah, vocês poderiam mudar
o som..." , milhões de coisas absurdas. Num certo
momento, a vontade é exatamente essa. Se for pra mudar
, que seja assim, grava o primeiro disco e tchau. Mas, com a
gente começou a acontecer umas coisas que deram credibilidade
pra gente fazer um trabalho e seguir isso. Hoje, mais que nunca
a gente tem essa liberdade e a certeza de um próximo
trabalho e um próximo trabalho e um próximo. O
que aconteceu foi que numa reunião com uma gravadora
que queria mudar o nosso som, a gente levantou e foi embora.
Se não fosse o Banguela na época, a nossa banda
seria outra.
09/05/2000
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