| Malhação: o novo culto a Apolo
A preocupação com um abdômen saliente,
ou com pneuzinhos nas costas, deixou de ser exclusividade feminina.
Agora são eles que correm, levantam pesos e suam a camisa
até a exaustão nas academias de ginástica.
Conquistar um corpo sarado e olhares de admiração
passou a mover homens dos 18 aos 80. Mas tanta vaidade com o
corpo tem como alvo o sexo oposto, como forma de aprimorar mais
uma arma de sedução? Os especialistas acreditam
que não.
“Esta vaidade é nova diante de nossos olhos mas
não diante da história. Os gregos valorizavam
a beleza do corpo e não apenas na arte, como uma forma
de aproximar-se dos deuses. E trabalhavam e enfeitavam o corpo
neste sentido”, avalia o sexólogo Arnaldo Rismann,
do Instituto de Sexologia. “Embora a vaidade acompanhe
o homem, hoje, ela tornou-se bem mais explícita”,
concorda a psicóloga Lúcia Bello.
Corpo bonito: satisfação para si mesmo
A questão é que enquanto o corpo feminino é
visto de forma mais erotizada, como seios e bumbum, quando se
pensa num corpo masculino, se pensa em músculos. “Músculos
são força, potência: se você é
forte, ganha; se é fraco, perde. Logo, além de
demonstrarem esta força, servem também de alvo
de comparações entre homens, objeto de competição
masculina”, analisa o sexólogo. Na opinião
da psicóloga Lúcia Bello, pode denotar certa dose
de baixa auto-estima. “Às vezes, é o meio
mais palpável que estes homens têm para se mostrarem
vitoriosos, vencedores, é o próprio corpo”,
diz.
Para Arnaldo Rismann, trata-se de uma questão narcísica.
Ou seja, é uma preocupação mais voltada
para si mesmo do que para o outro — no caso, a mulher.
“Prova disso é que, na ânsia de conquistar
um corpo perfeito, alguns homens chegam ao exagero de tomar
anabolizantes. Preferem correr o risco da impotência e
ganhar músculos do que continuar com um corpo franzino”,
diz. O objetivo da conquista, da sedução, também
existe, mas é secundário.
“Mais do que a necessidade de agradar à mulher,
ele quer agradar a si mesmo”, diz a sexóloga Sandra
Baptista, que acha que este tipo de atitude também traz,
no fundo, um benefício à imagem que se tem de
si mesmo e à fantasia que se tem do olhar do outro sobre
nós. “Quando nos sentimos bem e bonitos, achamos
que os demais estarão também nos percebendo desta
forma”, explica. E uma aparência mais bonita e uma
auto-imagem mais confiante tem mais chances de atrair o sexo
oposto. O que pode servir como um incentivo a reforçar
esta boa imagem - para continuar exercitando-se. “O perigo
é não se perceber que se está caindo no
exagero”, alerta.
Dificuldade ao toque feminino
Mas o dado que mais preocupa Arnaldo Rismann é que, embora
cuide de moldar o corpo de acordo com os atuais padrões
estéticos, a grande maioria dos homens não se
sente à vontade com ele quando o assunto é sexualidade.
“É curioso como 90% dos homens atendidos no instituto
sentem desconforto com o próprio corpo diante do toque
feminino. O que eles acham que tem que funcionar é apenas
a genitália. O mais, eles associam ao homossexualismo”,
afirma.
Mas se, por um lado, corpos esculturais podem esconder dificuldades
sexuais, por outro, também não é o corpo
esculpido em academia que vai sustentar uma relação
amorosa. “Embora as academias tenham se transformado em
ponto de encontro e isso até possa servir como uma aproximação
inicial, o homem que não voltou-se também para
olhar-se internamente, não viu suas questões emocionais,
pode ter facilidade em seduzir pela aparência, mas não
consegue levar avante a relação”, pensa
Lucia Bello. Trocando em miúdos, o melhor de tudo é
que a casca externa tenha a ver com o conteúdo. Melhor
para os homens e... as mulheres.
Fonte: Planeta Vida
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